Hoje, do meu pensamento desabrochou um rio de palavras. E do sono leve, um mau tempo de sentimentos. Dormi o castigo do mortalidade e vi o relógio que guarda o verme que cresce ávido no vazio dos ponteiros, para um dia se tornar em traça de asas felpudas, sair do relógio e habitar o meu coração podre.
Tic-tac Tic-tac.
Sonhei também acordado que a morte os levara e eu desamparado teria então de tomar conta da minha pupa, sozinho; com um medo que persegue alimentado pela solidão sombria que cresce com a idade, fazendo sombra nos lugares onde nunca pensamos faltar luz. E a solidão era profunda e quanto mais se adensava maior cresciam os medos velhos, as loucuras, as manias e as obsessões.
Tic-tac Tic-tac.
Tornamo-nos então em espectros dançantes ao som de um longo Requiem sem esperança de ter um novo andamento. Tocamos a peça a ritmo lento, para não acabar, mas vamos cometendo mais e mais erros nos compassos e nas cadências. Decadências. É o mistério da lagarta e da traça. Do relógio e seu espaço entre os ponteiros. Saber viver com ela sem que nos coma todo o espaço das horas com menos medo. Abro olhos para não adormecer, pois sinto que a largata se torna verme ávido pela noite, quando não estou atento.
Estou na Holanda e tenho pais. Foi um sonho; acordado. E eles têm relógios e espaço entre os ponteiros.
Tic-tac Tic-tac.
Tic-tac Tic-tac.
Tic-tac
Tic...
quarta-feira, 23 de maio de 2018
terça-feira, 28 de junho de 2016
Saudade, talvez
Seria mentira dizer que o
sopro da vida me abandonou,
que o verde do jardim enfraqueceu depois das nossas Primaveras,
ou que o mar já não é salgado pelas lágrimas que verti nele em desespero de ti.
Mas eu sei que o meu sorriso nunca mais foi o mesmo.
Provavelmente estará também com o meu calmo sono, que hoje, pouco ou nada me visita.
que o verde do jardim enfraqueceu depois das nossas Primaveras,
ou que o mar já não é salgado pelas lágrimas que verti nele em desespero de ti.
Mas eu sei que o meu sorriso nunca mais foi o mesmo.
Provavelmente estará também com o meu calmo sono, que hoje, pouco ou nada me visita.
Tal como em qualquer inverno me pergunto se a Primavera virá,
pergunto-me também se algum dia virás devolver-me aqueles anos.
Talvez, de facto, sejamos como Psyche e Cupido,
ou talvez não, pois nem sequer coragem de aceder a vela tenho.
Desde então, apenas vagueio dentro de mim mesmo.
Mais um
ano e outro insuportável Outono que passa.
Pelo menos antes tinha algo para festejar para além dos (teus) tons castanhos.
Agora só as nuvens me acompanham, chorando por mim.
Pelo menos antes tinha algo para festejar para além dos (teus) tons castanhos.
Agora só as nuvens me acompanham, chorando por mim.
Seria tolo dizer que ainda te amo, pois o amor não é eterno
Mas seria ainda mais tolo dizer que já não sinto amor.
Talvez o que queria dizer é que tenho saudades tuas.
Se não tivesse cosido a boca, dir-te-ia, com um sorriso.
Mas a vida obriga-me a sussurrar e eu sei que não ouvirás.
Despeço-me, com um sorriso.
,
quinta-feira, 21 de abril de 2016
To my grandmother
It was when she died that finally
I realize that distance is a mere illusion created inside ourselves. One that
is as painful as feeling that death is an end. I came across with this feeling
while facing death, not mine but of hers. The night she died I was sleeping in
the expectation of seeing her the day after to say a last good goodbye. It was
in this wondrous world of dreams, where life sometimes seems more realistic
than real life that I dreamed of her. We
were at Gerês, a lovely protected forest in the North of Portugal. A dearest
place in my heart that made part of my childhood and stayed in my heart so
fiercely that today I still feel the need to go there at least twice a year.
Gerês has relatively big mountains where small rivers are born from the peaks,
descending in dazzling waterfalls of pure nature power. When I go to the
waterfalls there is always a fair climbing protocol that must be followed. My
grandmother was climbing the path towards the waterfall when I said “Grandma, I
came from the Netherlands to visit you and seeing how you were. I thought you
were weak in the hospital.”. She replied “give me a hand in this rock so I can
climb. Don’t you worry. You know them, always worried…I’m fine”. The day after I
was in my office in the Netherlands while leaving a meeting that finally I read
in my phone a message from my mother saying that she has died. Now at last I
see that distance is not dependent of
geographical position but rather of how far a heart is from another. I know now
that she wanted herself to also say goodbye to me and that if dreams that are
the other face of the world as we see it might not mean anything, I would say
that for me would be hard to believe in that. I truly think that we can be with
each other only by the longing feeling of missing someone or wishing to be with
that someone. Once in a while I guess I’ll be able to see the waterfalls again
with her as I still have been travelling a lot overnight with my other
grandfather and through this cosmic experiences as distant as they might be, I’m
still very close to them and so I’ll continue to be. And I know that for both
of them, a rock in the way would never be a stop, but rather an adventure.
21.4.16
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
É com a morte que me lembro da vida
Apenas me lembro vivo quando sou
assolado pelas foices da morte. Consigo-me então lembrar da minha existência e,
mais ainda, da minha consistência orgânica, ditada pelas regras biológicas de
um principio e um fim. Lembro-me que pouco mais sou que um fluido comprimido
entre barreiras de osso, musculo e pele numa organização que ainda hoje faz
maravilhar qualquer curioso pela sua harmonia e fluidez. Um liquido em
transformação constante, revolto no seu interior, que mantém a outra parte não
material que somos nós ou aquilo que é a nossa consciência. É com a morte que
me lembro que o tão perfeito sistema foi desenhado para falhar um dia. Que a
vida é um janela aberta num dia de verão, mas que deve ser fechada ao cair da
noite para evitar o esfriar do anoitecer.
O meu avô costumava dizer que
“andamos aqui a arrastar a carcaça”. Pois se de facto nos tornamos ilimitados
pela nossa mente, somos ainda dependentes desta matéria que nos foi emprestada
com um prazo de validade do qual não sabemos adivinhar e com o qual não podemos
contar. Uma eternal dúvida se de facto um fim é um fim, ou se um fim é um
inicio, tal como o Outono nos leva as folhas para mais tarde nos recompensar
com outras cores em tempos mais primaveris. Se pelo menos pudéssemos fazer
planos calculados Segundo o dia em que fica então terminada, pergunto-me como
seria então a vida. Aliás, pergunto-me agora se, mesmo não sabendo, como devo
planear a minha vida se os seus fios são tão frágeis como as sementes de
dente-de-leão, mas no entanto nos agarram tão fortemente à terra pelas raízes
mais fortes de uma árvore que parece tão frágil.
Dizem que a morte é apenas mais
uma etapa desta viagem. Se assim o é, devo dizer que desconheço o seu destino e
começo a duvidar de que malas hei-de levar. E se o destino é o nada, então qual
o propósito de sequer as fazer? No fundo será como partir num comboio sem
destino, sem saber as paragens e chegar ao final da linha sem saber, com malas
vazias, pois já não lembramos, nem sabemos lembrar o que nelas havia. Se assim
for, a morte é injusta, mas pior ainda será a vida que nos mostrou a sua beleza
para que no fim nem sequer sejamos capazes de a lembrar. Uma fugaz visão da
luz, como o homem da caverna que certamente depois de ver a Luz, nunca mais se
contentará com a sombra.
Nas manhas de verão, voltamos a
abrir a janela para deixar entrar o Sol que nasce de manha, na esperança que
nos aqueça o coração esfriado pela geada. Talvez neste fugaz intervalo entre o
amanhecer e anoitecer possamos ver as Luzes que pelo mundo brilham. E que neste
incessante pulsar dos dias fique sempre a esperança de uma Primavera no fim de
um Inverno rigoroso.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Falsas memórias
Quantos jogos de verdade e mentira fazemos, tal e qual como um jogo de
xadrez connosco próprios, para nos cegarmos de uma verdade mais difícil de
acreditar?
Será que podemos dominar racionalmente o coração? Somos senhores da nossa razão, soberana sobre os sentimentos que nos assolam e nos consomem num crescendo de agonia e pavor face à impotência de sermos incapazes de domar esse tão selvagem animal que facilmente se desprende das correntes da racionalidade que tão bem arquitectadas foram?
Ficamos eternamente presos aos prazeres que outrora sentimentos, de tal forma encruzilhados numa teia sem fim de sentimentos, agarrados à nossa memória por raízes mais fortes que centenárias árvores que testemunharam o passar dos tempos pacientemente percorrendo todas as primaveras e invernos, das mais belas aos mais rigorosos, respectivamente, que parece já não sabermos o sabor destes. Passamos a associar os tão estimados prazeres às memórias daquela pessoa, ou daquele tempo em que a Luz era mais clara e a Escuridão menos arrebatadora. Porque o amor tem o poder de nos fazer ver este mundo com mais ânimo, que por vezes se apresenta tão desfocado e desprovido de cor, que a ideia de o vivermos todos os dias nesta solidão de alma é mais aterradora que a própria morte.
É então que mergulho no ridículo de pensar de mim para mim naquela rua, naquela roda-gigante, naquela música sem sequer ter oportunidade de prender de novo o indomável animal que teima em se escapar por entre os interstícios de mim mesmo. O amor é um vírus que nos consome os nutrientes na sua fase proliferativa, deixando-nos embriagados num febre temporária, até esta desaparecer e ficarem os resquícios dos seus competentes e finalmente cair na dormência, ou seja, sem nunca sair do nosso corpo. De tempos em tempos, como um vulcão pensado extinto, volta para nos assombrar o sistema imunitário.
No entanto, após visitar lugares que se cristalizaram na minha mente como sagrados e grandes pedaços de um sentimento, igual àquele amigo que não desejo rever, apercebo-me que já não são os mesmos. Que os mesmo lugares são agora outros disponíveis a novas memórias e que o que, tal como no famoso cemitério dos famosos, o Père-Lachaise, onde já não se encontram as pessoas, mas sim um pedaço quase invisível do que elas foram, chega-se à conclusão que a ansiedade de reencontrar estes lugares rapidamente se apaga com um sopro como a chama de uma vela ao dormer. E, na verdade, tal como a ansiosa espera de sentirmos algo com as campas daqueles que admirados, sentimentos nestes locais outrora cristalizados exactamente isso, nada. E hoje esses mesmos sentimentos que se apresentavam como os próprio Atlas do nosso parasita sentimental, da nossa obsessão pelo um passado que foi perfeito, são hoje apenas túmulos, estátuas, raízes e pedaços de pedra abandonados num lugar que já não é o mesmo. Fico aliviado por saber que o tempo, tal como a Justiça, tem os olhos vendados, castigando imparcialmente. Consigo ver as cicatrizes que carrego na cara desses sentimentos que tão estimáva e penso: quando é que eu me dediquei a amar tanto isto? Afinal, de facto, o amor e os seus sentimentos são passagens regularmente acompanhadas de delírios da nossa percepção, fotografias tiradas com os olhos durante uma viagem de comboio em que os pormenores se apresentam indistintos e desfocados pela velocidade da viagem. Voltando atrás aquele tempo vejo o quão ignorante era e isso faz-me lembrar duas coisas: o quanto cresci e me expandi como um gás compresso numa pequena botija e quanta ignorância tenho ainda a perder até ao fim da minha vida. Ai que vontade de ver todos os pores do Sol, de acompanhar o principezinho na sua viagem pelos planetas e poder sentar-me e levanter-me para ir vendo um constante pôr do sol no seu planeta. Que liberdade!
Será que podemos dominar racionalmente o coração? Somos senhores da nossa razão, soberana sobre os sentimentos que nos assolam e nos consomem num crescendo de agonia e pavor face à impotência de sermos incapazes de domar esse tão selvagem animal que facilmente se desprende das correntes da racionalidade que tão bem arquitectadas foram?
Ficamos eternamente presos aos prazeres que outrora sentimentos, de tal forma encruzilhados numa teia sem fim de sentimentos, agarrados à nossa memória por raízes mais fortes que centenárias árvores que testemunharam o passar dos tempos pacientemente percorrendo todas as primaveras e invernos, das mais belas aos mais rigorosos, respectivamente, que parece já não sabermos o sabor destes. Passamos a associar os tão estimados prazeres às memórias daquela pessoa, ou daquele tempo em que a Luz era mais clara e a Escuridão menos arrebatadora. Porque o amor tem o poder de nos fazer ver este mundo com mais ânimo, que por vezes se apresenta tão desfocado e desprovido de cor, que a ideia de o vivermos todos os dias nesta solidão de alma é mais aterradora que a própria morte.
É então que mergulho no ridículo de pensar de mim para mim naquela rua, naquela roda-gigante, naquela música sem sequer ter oportunidade de prender de novo o indomável animal que teima em se escapar por entre os interstícios de mim mesmo. O amor é um vírus que nos consome os nutrientes na sua fase proliferativa, deixando-nos embriagados num febre temporária, até esta desaparecer e ficarem os resquícios dos seus competentes e finalmente cair na dormência, ou seja, sem nunca sair do nosso corpo. De tempos em tempos, como um vulcão pensado extinto, volta para nos assombrar o sistema imunitário.
No entanto, após visitar lugares que se cristalizaram na minha mente como sagrados e grandes pedaços de um sentimento, igual àquele amigo que não desejo rever, apercebo-me que já não são os mesmos. Que os mesmo lugares são agora outros disponíveis a novas memórias e que o que, tal como no famoso cemitério dos famosos, o Père-Lachaise, onde já não se encontram as pessoas, mas sim um pedaço quase invisível do que elas foram, chega-se à conclusão que a ansiedade de reencontrar estes lugares rapidamente se apaga com um sopro como a chama de uma vela ao dormer. E, na verdade, tal como a ansiosa espera de sentirmos algo com as campas daqueles que admirados, sentimentos nestes locais outrora cristalizados exactamente isso, nada. E hoje esses mesmos sentimentos que se apresentavam como os próprio Atlas do nosso parasita sentimental, da nossa obsessão pelo um passado que foi perfeito, são hoje apenas túmulos, estátuas, raízes e pedaços de pedra abandonados num lugar que já não é o mesmo. Fico aliviado por saber que o tempo, tal como a Justiça, tem os olhos vendados, castigando imparcialmente. Consigo ver as cicatrizes que carrego na cara desses sentimentos que tão estimáva e penso: quando é que eu me dediquei a amar tanto isto? Afinal, de facto, o amor e os seus sentimentos são passagens regularmente acompanhadas de delírios da nossa percepção, fotografias tiradas com os olhos durante uma viagem de comboio em que os pormenores se apresentam indistintos e desfocados pela velocidade da viagem. Voltando atrás aquele tempo vejo o quão ignorante era e isso faz-me lembrar duas coisas: o quanto cresci e me expandi como um gás compresso numa pequena botija e quanta ignorância tenho ainda a perder até ao fim da minha vida. Ai que vontade de ver todos os pores do Sol, de acompanhar o principezinho na sua viagem pelos planetas e poder sentar-me e levanter-me para ir vendo um constante pôr do sol no seu planeta. Que liberdade!
sábado, 8 de agosto de 2015
De um lado para o outro.
Enquanto finjo ser um malabarista do meu próprio corpo numa
viagem oscilante entre dois carris de ferro presos ao chão questiono me sobre a
vida de quem me faz companhia. Cada um de nós leva consigo uma série de
bagagens intermináveis que talvez possam passar despercebidas num primeiro
olhar mas que facilmente fluem até nós como água num milagre osmotico de
sentimentos e sensações escritos num código tão antigo quanto a nossa espécie.
Esta bagagem pessoal prende se na cor da pele das crianças
negras que se sentam ao meu lado, com o seu cabelo encaracolado e as suas caras
curiosas, cheias de vida e verdadeira felicidade. Aquela ingénua de quando nada
se sabe porque pouco se viu ou pouco se soube ainda. E assim se vão divertindo
a tirar fotos a si próprios com caras de tigre ou leão enquanto o pai, livre
como todos os outros passageiros, carrega ao pescoço uma corrente de elos
metálicos que outrora poderiam ter outro significado mas hoje é apenas um
adereço da Dolce&Gabbana, aproveita o lugar sentado para dormitar. Enquanto
me distraio pela trepidação vejo uma idosa, sentada duas cadeiras à frente, que
veste umas roupas largas e soltas com padrões orientais. Poder-se-ia dizer que
sobre ela se abate todo o cansaço de uma vida. Por detrás dos seus óculos
elípticos existe um peso que faz tombar os seus olhos intervalado pelo esforço
inútil de os manter abertos e desportos ao mundo. O peso vence mesmo sob o
burburinho atrevido que se faz sentir na carruagem. E nem mesmo o som das
crianças atrás parece ter efeito perante o embale da viagem. No entanto, nem o
entardecer do dia, com as suas cores mais quentes reflectidas nas paisagens
bucólicas que intercalam uma civilização da outra, nem o cansaço físico que
finalmente encontra descanso nos estofos azul-turquesa do comboio parecem
vencer a senhora de cabelo cor de trigo que se encontra justamente sentada ao
lado da personificação do sono. Pelo contrário esta leve senhora, claramente
uma turista, mas não de longe já que fala francês fluentemente, traz vestido um
calção branco curto com uma camisa às riscas azuis e brancas. Tão profundamente
posta em si mesma quase sobre um código de estritas regras, são poucos os
músculos da sua face que se mexem face ao ambiente irrequieto que agora se faz
sentir ou tudo o resto que esta viagem proporciona. Delicio me com a sua calma
inviolável e a sua simplicidade tão complexa que lhe fez escolher uma pulseira
de pedras azuis e transparentes que combinam com os seus olhos azuis safira,
também estes cansados mas de uma forma diferente da sua vizinha.
Pergunto o que pensarão eles de mim enquanto penso neles e
em todos os outros que já entraram e já saíram. Sempre associei viagens de
comboio à própria vida. Fico aqui a assistir a entrada e saída das pessoas
sendo tocado por elas por laços invisíveis tornando me eternamente ligado por
frágeis fios de seda. Afinal de contas que poderá ser a vida senão mesmo uma
viagem de várias cores e sentimentos. Um cruzar de vezes, com reencontros
esporádicos. Uma viagem de várias paragens em que todos sabemos o início e o
destino, sem saber o percurso, mas sempre com a certeza de poder apreciar quem
viaja connosco e quem nos gentilmente oferece sorrisos sem esperar nada em
troca. Não tarda nada já saímos na última estação.
terça-feira, 21 de julho de 2015
Talvez morrer seja devolver algo que pedimos por empréstimo.
Por vezes acredito que só consigo
ser feliz quando estou triste. Talvez assim faça sentido esta dualidade de
forças contrárias, outrora explicadas na física e as suas leis. Se existe uma
força, existe outra contrária. Os momentos mais felizes quase sempre são
resultado da ausência da infelicidade. Tal como a saúde é um estado transitório
da doença, como dizia o meu Avô. Engraçado como parece que andamos todos a
fazer coisas contrárias àquelas que queremos ou mesmo cultivar imagens de nós
próprios que não são aquelas com as quais nos identificamos ou queremos que
sejam reconhecidas pelos outros.
Tal como quando duas forças de
sentidos contrários se anulam quando os seus valores se igualam, também nós
parecemos não nos movermos no espaço e no tempo, presos num referencial, numa
translação estática, sem sentido, perdidos pela falta de moção. Num jogo de
forças neuronais, qual vence? Serei puxado para um dos lados ou simplesmente
flutuo pelas minhas memórias, estagnado, gravitando entre as lembranças, num
país que já não aparece nos mapas e que figura apenas em livros de História?
Sempre lamentarei a vitória só
corpo sobre a minha mente, ou da minha mente sobre o meu corpo. Ainda não sei
distinguir. Talvez de facto aqui gostasse que a força resultante foça nula e
que a soma dos meus pensamentos fosse igual a subtracção da minha componente
orgânica, à qual todos nos achamos dependentes até ao fim da sua função. Ora
aqui fica evidente que o corpo ganha este jogo de regras subtis, uma vez que
toma decisão sobre o seu fim, mesmo que a mente não tenha encontrado em si o
mesmo destino, a mesma decisão de término. Ou talvez será de facto a mente que,
ao se enrolar em si própria num novelo sem pontas, acaba por dar vários nós ao
corpo que gentilmente os vai tentado aceitar e resolver, talvez mesmo se
adaptar até já não haver solução.
Acredito mesmo que somos
invariavelmente a resultante de todas estas forças e que elas não se aplicam a
nós, como a tudo o que envolve. E que por cada acção que praticamos, um outra é
desencadeada numa cascata de acontecimentos que pouco ou nada somos capazes de
prever. Tão fácil como saber que por cada semente que plantamos, mais oxigénio
do qual somos dependentes estará mais disponível. Talvez morrer seja apenas
devolver algo que pedimos por empréstimo.
domingo, 7 de junho de 2015
O céu azul da Holanda
Enquanto uso a relva como berço
para as minhas viagens entre um estado meio desperto, meio entorpecido,
encontro-me diante uma bela pintura holandesa, coberta pelos seus tons subtis
entre cinzentos e brancos que cobrem este céu de Primavera tímida, pintando
aqui e ali com o borratar de pincel que confere às nuvens um face indefinida,
amorfa, mas com um carácter celestial e angelical, tal como dois polos do mesmo
corpo celeste, fazendo destas senhoras o motivo do meu reparo inicial. Deito-me
a ostentar esta gratuita beleza e também as outras belezas – aquelas esquecidas
e apagadas pelo peso das cidades. É então que consigo perceber a dança das
cores nas telas das pinturas dos grandes artistas Holandeses; dos traços
cuidados, fluídos que cantam o som do vento rodopiante que faz avançar as nuvens,
mudando a condição atmosférica ao mesmo compasso presto usado pelo mar para fazer avançar
as suas ondas sobre o pálido areal.
Sinto a relva a tocar-me o corpo. Sinto-o como uma comunhão com a Natureza há muito perdida entre o homem e aquela que o criou. Ao deparar-me com as nuvens, compreendo também os seus movimentos que aos olhos desatentos que pelo céu passam, poderão julgar ser aleatórios, mas que com o cobrir da luz do Sol pelos seus véus brancos, num intervalo de tempo suficiente para observar todos os detalhes agora revelados pela sombra, rapidamente percebe-se que as nuvens, tal como eu e a relva que me amortece, aproximam-se timidamente umas das outras, apenas se tocando e eventualmente se fundido, se assim se sentirem dispostas ou o vento da vida o ditar. Tal como as nuvens – essas massas de ar deambulantes, aparentemente semelhantes entre si, dispostas num céu de diferentes tonalidades de azul, amorfas e indistintas – também nós nos governamos (ou somos governados) por estas regras invisíveis, tocando a massa amorfa dentro de um outro, apenas quando uma brisa mais forte de vento se faz ressoar sobre o prado verdejante, numa tarde de Sol, sobre as camas de Natureza que nos acolhem na pequena clareira verde.
É então que fecho os olhos a este mundo para a seguir abrir a um outro. Se a viagem anterior pode ter parecido interessante, a que se seguiu transforma a primeira numa experiência completamente banal. Dormitar ao sabor do som de melros, pardais, cigarras, abelhas, entre outros seres vivos, todos ocupados com o seu próprio microcosmos, com os seus fazeres preocupados e sistemáticos, permite-nos viajar para lugar incerto, sem malas, sem hora de ida ou de volta. Uma viagem que não segue as dimensões a que estamos sujeitos e projectados, onde nem o impiedoso tempo nos faz escravos e onde os limites são ilusões. Neste estado de dormência não posso viajar-me pelas nuvens, mas sê-las e pintar-me com o pincel de pêlo de boi. Pincelar-me ao tempo de tons brancos sobre o céu e fazer-me voar ao sabor do meu vento, fundindo-me e separando-me a meu bel-prazer, criando a minha própria linguagem subtil, o meu próprio admirar de um outro mundo em que as minhas asas são lágrimas do céu e os raios de sol abatem-se sobre mim numa apetitosa sensação de paz e …
É então que acordo entorpecido e confuso, pois sempre que se faz uma viagem, seja ela qual for, o acordar é seguido pelo desconforto de não se saber onde está. A luz decomposta pelos seus raios de Sol ainda me fere os olhos e é então que vejo lá em cima aquelas brincalhonas. Já não são as mesmas, agora outras, com novas formas e feitios. Poderia olhar para elas o dia todo. Apesar do sorriso imposto pelas novas, não consigo deixar de ficar triste pelas que já foram. Como gostava delas.
Sinto a relva a tocar-me o corpo. Sinto-o como uma comunhão com a Natureza há muito perdida entre o homem e aquela que o criou. Ao deparar-me com as nuvens, compreendo também os seus movimentos que aos olhos desatentos que pelo céu passam, poderão julgar ser aleatórios, mas que com o cobrir da luz do Sol pelos seus véus brancos, num intervalo de tempo suficiente para observar todos os detalhes agora revelados pela sombra, rapidamente percebe-se que as nuvens, tal como eu e a relva que me amortece, aproximam-se timidamente umas das outras, apenas se tocando e eventualmente se fundido, se assim se sentirem dispostas ou o vento da vida o ditar. Tal como as nuvens – essas massas de ar deambulantes, aparentemente semelhantes entre si, dispostas num céu de diferentes tonalidades de azul, amorfas e indistintas – também nós nos governamos (ou somos governados) por estas regras invisíveis, tocando a massa amorfa dentro de um outro, apenas quando uma brisa mais forte de vento se faz ressoar sobre o prado verdejante, numa tarde de Sol, sobre as camas de Natureza que nos acolhem na pequena clareira verde.
É então que fecho os olhos a este mundo para a seguir abrir a um outro. Se a viagem anterior pode ter parecido interessante, a que se seguiu transforma a primeira numa experiência completamente banal. Dormitar ao sabor do som de melros, pardais, cigarras, abelhas, entre outros seres vivos, todos ocupados com o seu próprio microcosmos, com os seus fazeres preocupados e sistemáticos, permite-nos viajar para lugar incerto, sem malas, sem hora de ida ou de volta. Uma viagem que não segue as dimensões a que estamos sujeitos e projectados, onde nem o impiedoso tempo nos faz escravos e onde os limites são ilusões. Neste estado de dormência não posso viajar-me pelas nuvens, mas sê-las e pintar-me com o pincel de pêlo de boi. Pincelar-me ao tempo de tons brancos sobre o céu e fazer-me voar ao sabor do meu vento, fundindo-me e separando-me a meu bel-prazer, criando a minha própria linguagem subtil, o meu próprio admirar de um outro mundo em que as minhas asas são lágrimas do céu e os raios de sol abatem-se sobre mim numa apetitosa sensação de paz e …
É então que acordo entorpecido e confuso, pois sempre que se faz uma viagem, seja ela qual for, o acordar é seguido pelo desconforto de não se saber onde está. A luz decomposta pelos seus raios de Sol ainda me fere os olhos e é então que vejo lá em cima aquelas brincalhonas. Já não são as mesmas, agora outras, com novas formas e feitios. Poderia olhar para elas o dia todo. Apesar do sorriso imposto pelas novas, não consigo deixar de ficar triste pelas que já foram. Como gostava delas.
domingo, 26 de abril de 2015
Escolha
Sê brando comigo.
Não escolhi ser
assim.
Gostaria de poder
dizer que sou este e aquele, mas afinal de contas, sou mesmo isso, nada.
Um nada que é um
todo. Um todo cheio de vazio no seu interior.
Estou partido em
vários pedaços, retalhos de uma ideia, de um pensamento.
Mas até a praia
paradisíaca é composta por mil grãos de areia.
Eu não escolhi
ser assim.
Não escolhi ter o
reflexo que vejo na poça de água.
Não escolhi sentir isto, ou aquilo, ou nada.
Não escolhi
fechar os olhos quando não queria ver.
Não escolhi amar,
nem morrer.
Não provarei a
dor que há em mim.
Deixarei passar
como faz uma bela espectadora
Deixarei o vento
soprar, pois ele sabe para onde vai e eu não.
Deixarei a chuva
molhar e lavar o tempo.
Eu não escolhi
ser assim.
Um todo que é
nada constantemente.
Um chorrilho de
disparates com sentido,
Um novelo sem
ponta ou fim, emerenhado em si próprio,
Sofucado pelo seu
próprio peso,
Em toneladas de
pensamentos turvos,
Outros escuros e
outros ainda mais escuros.
Eu escolhi ver.
Escolhi ouvir. Escolhi provar.
Escollhi fazê-lo
em frente, sem que paisagens de trás me distraissem.
Quando me voltei,
segui em frente.
Não deixei mais
espaço ao olhar, nem ao pensar.
Porque se
chorasse mais, faria oceanos.
Se pensasse mais
escreveria livros.
Se me demorasse
mais, não daria passos.
Eu não escolhi
ser assim.
Não escolhi
aceitar a dor em vez de a viver, ainda que a viva todos os dias.
domingo, 5 de abril de 2015
Páscoa
Aparentemente hoje Jesus ressuscitou. Não sou católico, nem acredito na
religião e na sua doutrina. Ainda assim vejo esta data como forma de
ressuscitarmos pessoas. Se a lei de Lavoisier postulou que na natureza nada se cria,
nada se perde, tudo se transforma então, irremediavelmente, haverá sempre um
pedacinho de nós que aqui fica, já que daqui veio. Tudo isto nos é emprestado.
Até o próprio sangue que nos corre pelas veias do nosso corpo, carregando o
oxigénio que nos mantém vivos, pelo trabalho da hemoglobina, possui hoje o
ferro que um dia pertenceu à morte de uma estrela. A morte para dar lugar à
vida. Somos todos pequenos pedaços de algo maior, seja Deus, sejam Vários, ou
outra Coisa qualquer, reconhecer a importância desta irmandade é fundamental para
entender a vida
A divindade em si, existe quando me
deleito a contemplar um ramo de uma árvore que levemente baloiça sobre a brisa
quente de uma tarde de Abril em que as folhas novas da Primavera dançam com o
vento sobre um compasso que tento entender, ao som de umas notas orquestradas
por algo invisível. Delicio-me a olhar para a minha gata que levemente lambe a
sua delicada pata branca num torpor melancólico primaveril, sob a preguiça
teimosa do sol embalador que nos deixa tombar os olhos. Se eu e ela não somos o
mesmo. Se eu e ela que nos rendemos ao calor do mesmo astro ardente, perante a
mesma espirelada galáxia, não somos o mesmo, então que somos nós? Gato e
humano?
Frequentemente nos esquecemo de calcar a relva e ver a natureza. De sentir
cada húmido pedaço de planta debaixo (curiosamente) da nossa planta dos pés.
Que bom é calcar a relva. Que bom é o sol. Que bom é o silêncio. O nosso
silêncio. Hoje ressuscitou. Ressuscitou na minha memória estes pedacinhos de
todos nós, aqueles que já não me fazem companhia ao almoço que hoje recheou a
casa de cores e odores, de conversas e olhares de quem se conhece e reconhece,
espelhos entre espelhos, numa dança em que já se adivinham os passos de cada um.
Ressuscitaram na relva, no Sol, nas folhas que brincavam ao vento, ou na música
que tocou à refeição. Foram os adagios,
com os violinos a cortar o ar. Foram as vozes francesas e belgas dos cantores
de outrora que te fazem ressuscitar e que sempre farão. A Páscoa é isso mesmo.
O amor ressuscita, seja o que for, seja quem for.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Caminhos rochosos
Aqueles que por
mim passaram, foram deixando um rasto da sua presença nos pequenos detalhes
deste frágil voar de borboleta que são as nossas vidas. Hoje vejo que não sou
um, mas vários. Que não sou eu, nem o outro, mas outrem. Cada um que passou,
com o seu polegar, ora leve, ora grosseiro, deixou um moldar do barro que hoje
faz a escultura que não acaba e não acabará até estar concluída e finita, e
quem sabe, até voltar a ganhar outra vida, outro sentido.
Nas pequenas
actividades do quotidiano, há traços deles. Seja pelo hábito que ficou, seja
pelo livro que hoje releio com saudade, ou até pelo gesto feito em palavras que
me soam comuns a algo que já não é, já passou. Estas memórias assemelham-se a gigantes
afloramentos rochosos no topo da montanha, soldados graníticos resistentes à
erosão do tempo. São com elas que traçamos o mapa geográfico da nossa vida. São
as rochas que param o tempo em nosso redor, como um intervalo estagnado dentro
de algo que não pára, que é o tempo.
Estes seres
graníticos, que nos olham sem olhar, do topo da montanha, relembram-nos do que
vivemos e do que já passou. Os mais aguçados que ainda hoje nos fazem tropeçar
na calçada invisível daquele caminho que julgávamos extinto, ensinam-nos que as
feridas demoram a sarar e que qualquer momento nos serve de aprendizagem para
futuras quedas. Os mais macios, já erodidos pelo vento e as lágrimas, com
superfícies que agora reflectem a luz do Sol, onde já nos podemos recostar para
o nosso leve voar de mente, servem-nos agora para deliciar do que já foi e já
passou. Porque ainda que tudo esteja destinado ao fim, não quer dizer que não
possamos sorrir com a lembrança do outrora. Perderemos tempo a chorar o fim da
Primavera, senão olharmos para o futuro que nos aguarda com outra e outra
Primavera diferente.
Hoje entendo que
há males que vêm por bem. Que os locais mais inóspitos da nossa Terra são só
mais protegidos por obstáculos. E que se não soubermos ser infelizes, nunca
chegaremos a ver a felicidade que nos é apresentada todos os dias. Abri os
olhos, para que a boca pudesse sorrir, porque afinal estavam certos, é de novo
Primavera.
Onde as nuvens
formam a pálida neblina do amanhecer lá na Serra, onde o silêncio só pode ser
quebrado pelas nossas infames palavras e a sinfonia que se ouve é só e apenas
do crescer das nossas almas, é onde agora, com atenção, no dispersar da
neblina, se avistam as rochas cobertas do verde, do amarelo, do roxo, do
azul do vermelho, dessas tão
inteligentes cores que não só atraem as abelhas para a polinização, mas atraem
uma vez mais, o nosso sorriso. Agora sim, deitar-me-ei no amolecido granito já hospedeiro e brando pelo passar do tempo.
terça-feira, 17 de março de 2015
Amor a prazo
Na era do plástico
e do descartável não seria de admirar que o amor fosse imune a este vírus que é
o tempo, ou a sua escassez. Curiosamente, o tempo, tal como acontece quando as
nossas mãos juntas em concha numa tentativa frustrada de albergar água, sofre o
escoar da sua dimensão e volume pelas frinchas criadas pelos dedos até que o que
dele resta no fundo, tal como a água, é feito refém da evaporação até a sua
finitude. O tempo sempre teve pressa e sempre correu a nosso desfavor. Tempus fugit. A arte por detrás do tempo
prende-se com a escolha inteligente da sua utilização. Sendo que a falta dela
-utilização - é já por si só uma escolha e uma utilização. Tempus fugit.
Nesta nossa época,
em tempos de múltiplas oportunidades e liberdades, opções de todas as cores com
disponibilidades imediatas, ou substituições fáceis justificadas pela pressa de
não perder o novo ou o alternativo, age-se com uma fome de viver e conhecer, em
que tudo deve ser célere. Assim sendo, no amor, também somos vitimas e culpados
desta nova rapidez. A dedicação que outrora existiria é agora vista como perda
de tempo. E essa perda é considerada irracional. Tempus fugit. Os sentimentos que devem ser nutridos e cuidados, que
devem constituir uma parte integrante do nosso tempo e que, aliás, deveriam ser a razão pela qual vivemos, são
agora desprezados e/ou substítuidos por fracas imitações dos mesmo, como
imitações de quadros em museus que facilmente são dectadas por olhos atentos de
quem as observa.
Custa-me entender o olhar que hoje temos do mundo. Esta cultura do fácil
e do agora afasta-nos do essencial e do verdadeiro. Custa-me perceber como
vemos o amor de forma tão diferente. Como facilmente os anos se transformam em
aborrecimento e toda a dedicação a uma só pessoa se torna, num momento só, em
nada. Como pode ser mais fácil desistir-se de alguém e de algo que tanto tempo
nos levou a construir, do que a ideia de construir de novo e do principio todo
o sentimento que, como um castelo, foi construido pedra por pedra até atingir
essa rara altura em que das torres já nos é díficil destinguir o chão?
A facilidade com que se salta de pessoa para pessoa, de sentimento para sentimento
causa em mim um infinito terror do valor que nos é dado e do valor que damos
aos outros. No fundo, no meio desta confusão de se ter pressa, mas procurar-se
alguém para o futuro, somos os inimigos de nós próprios, adulando esta imagem
de nós mesmos, como merecedores de mais e melhor, condenados a este individualismo
e desapego pelos outros, tal como Narciso se afogou de tanto se amar. E, este
entendimento que temos pelos outros, este buscar da verdade dos outros é tão
pequeno que apenas acordamos com a nossa verdade, sem sequer nos percebermos a
nós próprios e assim dormimos sem alguma vez termos percebido os outros. Um tempo
em que tentar perceber o outro e o seu mundo, em que tentar decifrar as miríades
entranhas de um universo tão complexo de alguém - porque no fundo cada um de
nós representa um mundo aos olhos dos outros – tornou-se tão algo tão
dispensável e desinteressante que acabou sendo substituido por assunções e
julgamentos de como de facto sera a vida do outro. No fundo, não se procura
saber nada, nem sobre os outros, nem sobre nós próprios.
O tempo determina também um prazo. E assim estamos todos sujeitos a este
prazo, seja pelo tempo que aqui permanecemos, ou pelos prazos que o tempo nos
impõe ao longo da vida pelo caractér temporário característico das coisas. Estes
prazos são cada vez mais curtos, comparando, ironicamente, com o aumento do
tempo de vida. O nosso presente já está no futuro e o hoje tornou-se no amanhã,
numa frenética corrida pela novidade. Assim se chega a conclusão que o mesmo se
passa no amor. Não existe tempo para construir o castelo, mas deseja-se tê-lo.
Por outro lado, quando não avistamos bem o chão do alto das suas torres, já o
chão nos parece tão mais interessante, tão cheio de novas experiências. O
problema está novamente na forma como olhamos em redor. Tal como na utilizaçãodo
tempo depende do nosso descernimento pela correcta visualização da verdadeira
beleza, no topo do pináculo do nosso castelo se oharmos para cima, veremos que
as formas das nuvens no céu são agora mais nítidas e mais belas, libertando-nos
da curiosidade do chão.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Querido Avô
Querido Avô,
A saudade, essa tão Portuguesa palavra
que só nós compreendemos, mais que o sentir falta de algo, é um sentimento com
o qual crescemos e não sabemos explicar. É uma mistura do que é bom com o que é
mau. Um dissabor melodioso, que nos permite chorar, tremer, soluçar, mas continuar
a querer sentir aquela amarga dor.
Perder alguém que nos observou de
perto, é perder parte de nós. Até hoje sufoquei só a possibilidade de pensar na
ausência. Hoje dói mais. Dizem que não há dias para chorar alguém. Não há dias
para se ter saudade de alguém. Que ela está presente e vem e volta quando quer
e aparece. E assim foi. Durante este ano, sombra silenciosa, intrometeu-se no
meu coração. Por vezes deixando um leve sorriso, outras um pequena e tímida lágrimas.
Mas noutras, um grande soluço e uma falta imensa.
Eu hoje choro. Choro-te, enquanto
ouço a banda sonora do “Mon oncle” de Jacques Tati que tantas vezes vimos em
conjunto. Relembro na personagem principal cada pequeno pedaço de ti. Mais do
que outra qualquer memória, todas estas notas da apetitosa melodia do filme
transportam-me para ti. O filme é quase todo ele passado em silêncio, tal com
os outros filmes do Charlot que víamos. Eu costumava observar-te quando estavas
em silêncio. Ficavas várias vezes absorto, dentro do teu mundo, franzindo a
testa, coçando a cabeça e pensado na próxima coisa que ias criar. Não há nada
mais bonito que essa memória, de te ver no Gerês, passeando pela casa com este
e aquele projecto, sempre ocupado.
Há um ano atrás desejei que te
fosses, que te apagasses e acabasse todo o teu sofrimento. Quis que não
tivesses de te sentir a deteriorar, como bem dizias: “Ando a arrastar o cadáver”.
Nunca me esquecerei da última vez que te vi. Perto da morte, cheguei a perto de
ti e beijei-te a testa e disse: “Adeus avô”. Hoje só te queria aqui por perto.
Disseram-me ontem que nada, nem
ninguém é insubstituível. E que cada parte de alguém está sempre em nós. Assim
o é. Perpetuamos a presença de alguém pela sua memória e porque hoje sou quem
sou, pelo que me deixaste. Tudo na vida tem o seu fim. E mesmo as bonitas
flores na jarra, com tons amarelados e brancos padecem perante os ventos do
tempo que nunca deixam de soprar. Mas como tu sabes, neste mistério que é a
vida, neste mistério que é a morte, haverá com certeza uma ordem: a da renovação.
Não somos substituíveis, pois permanecemos nos outros, na sua pele, nos seus
cabelos, nos seus olhos, na sua voz, na sua cabeça, mas esta dor de não te ter
aqui é-me consolada pela presença de outras pessoas e de outros sentimentos.
Gostava de te poder beijar
novamente, não aquele avô deitado no hospital, mas o avô que ensinou a moldar o
barro e criar obras de arte que hoje perpetuam a forma como tu sempre viste a
vida. A forma como conseguiste dar vida ao pó e à água e de eles ter renascido
algo que nunca terminará.
Esta é a carta que nunca te
consegui escrever. Mas há o ano atrás chorava por ter acabado o teu sofrimento.
Hoje choro por não te ter.
Hoje choro, mas não choro tudo.
Mas também, nunca ninguém chorou tudo o que tinha a chorar.
Com uma enorme saudade do teu
neto que te ama,
David
(23-12-14)
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Amor
Eu já me enganei tanto contigo.
Já te conheci, já te esqueci.
Já te lembrei, já te desesperei.
Olhei em redor e estavas,
mas logo desapareceste. Sumiste!
Por vezes chegaste de mansinho,
pela calada. Com um cuidado andar,
entraste por essa porta que é a minha vida e…
Deixe-te entrar, acolhi-te.
Acaricie-te, sem saber como ou porquê.
Sem te perceber, ou querer.
Jurei-te e prometi-te.
Mas tu foste-te. Foste-te.
Sem avisar saíste daqui, deixando um rasto,
pintando cada parede de cada sala do meu corpo,
deixando a lembrança fraca da tua existência.
Esqueci-te. Achei-te longe de mim.
Quando no outro dia espreitaste pela porta,
não quis acreditar ver.
Perguntei-te: “Voltaste?”
Não respondeste.
Achei-te tímido, mas voltei a acreditar.
9-12-14
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Ecos
Quantas vozes tem uma estreita multidão?
Quantos gritantes murmúrios padecem,
face à asfixia do tudo e do todo,
que implacavelmente nos conduz, ordeiramente?
Que se berre, que se
chore, quem nos ouve?
De que coragem dispomos para encontrar a gota,
aquela perdida, no meio de tantas outras,
que da mesma água não é feita do oceano a que pertence?
No silêncio da velhice, um sussurro enche a sala,
Pinta de cores quentes o espaço entre as notas tocadas,
Dando sentido à existência de uma sombra, já fugaz.
No entanto, só aquele engendrado plano,
capaz do pintar de asas de uma borboleta,
se encontra razão para tal murmurinho de tão tremendo
significado.
Dedicado ao João Monteiro
26-11-14
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Memórias...
Com um suave dançar de dedos nas
teclas um piano ganha o seu canto, fazendo vibrar as suas diferentes cordas
vocais, com pequenos martelos que, suavemente, embalam um ouvinte numa torrente
de ambíguas memórias. Como uma Nocturne de Chopin uma memória desenrola-se do
seu doce novelo, fazendo valer cada acorde, cada bemol, cada pausa, numa
apetitosa melodia que ora pode ser doce, ora amarga.
Incrível a forma como funciona. É
capaz de banhar todo o nosso pensamento, como uma só gota sensorial,
transportando-nos para outro qualquer sítio, ou mesmo outro qualquer Eu, no
passado. O passado, esse, reserva-nos tanto e tão pouco. Se por um lado nos
educa para o presente, com a sua voz autoritária e paternal, também nos entorpece
a razão, tornando-nos letárgicos ao presente, permitindo-nos navegar por o
grande oceano da nostalgia e da saudade. Saramago dizia: “O passado é um imenso
pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se
tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam,
porque precisam de saber o que há por baixo delas”.
Há, no entanto, em cada um de
nós, uma velha caixa, seja ela física ou imaterial, onde os objectos de outrora
são guardados por nós e a nós. Mergulhar nessa caixa é correr o risco de se
ser assoberbado por sorrisos, surdos gemidos, prantos, ou mesmo acesos de raiva
e incompreensão. É extraordinário como um simples pequeno papel pode inflamar
uma rede de neurónios tão bem preservada, capaz de transformar sinais físicos
em eléctricos, devolvendo uma emoção que em nada é tímida. E o cérebro, bom
entendedor, também ele nos devolve uma reacção física, seja ela uma lágrima, um
sorriso, ou mesmo, com o auxílio dos pulmões, um vultosa gargalhada.
As memórias que mais me
entorpecem, pela beleza que lhes é inerente, são as cartas. Sejam elas em
postais, ou grandemente letradas, representam sempre promessas de algo. Pelo
menos, promessas de fazer chegar algo a alguém. As cartas são as melhores
memórias, pois, em si, já são memórias quando as recebemos. Enquanto vasculho, no meio de tanto e de tudo, deparo-me com postais de uma tia querida. As cartas
são registos da nossa existência e dos outros. Viajantes incansáveis que
fizeram chegar tanto a muitos. São belas, porque tal como Hérmes, o mensageiro,
fazem chegar algo que aparenta tão pouco e que significa muito. E hoje, são
elas que me fazem chegar a mim a memória de outros tempos e de outras pessoas
que já foram. A memória de outros sentimentos que entretanto o tempo me fez
esquecer. A memória de promessas perdidas pela distância. A memória de amores
que já foram e que hoje olho para cada um deles e para as carta que leio com
duas caras.
Enquanto o piano vai cantando a
tua memória vai alimentando e acalentando esta colmeia eléctrica que é o meu
cérebro. Por fim o silêncio, até ver. Obrigado.
25-11-14
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Desespero
Ao fim de dezoito anos de estudo,
nunca me foi ensinado como lidar com o desespero, ou sequer como antevê-lo. A
verdade é que todos nós somos assolados por ele na vida. Todos nós temos um
medo aterrador de tudo, do início, da continuação, ou do fim. No entanto nunca
nos ensinam a lidar com tudo isto. Ensinaram-nos matemática, ciências, as
línguas, os poemas, os escritores, a história do nosso país, dos outros, da
humanidade, dos impérios, do que já foi, do que é e do que virá a ser.
Infinitos exemplos de infinitas repetições. Ensinaram-me a ler, a ver, a
escrever, a falar, a ouvir, mas não a sentir.
Em todo este processo educacional
extenso, como se negligenciou algo tão importante, tão único do nosso ser, que
parece continuar a ser coberto por um véu preto intransponível? Vivemos de
sentimentos, movemo-nos por sentimentos sem saber o que são, ou sequer ter a
sua compreensão.
Depois de tanta repetição de nós
mesmo, após anos de civilizações, de exemplos continuamos sem sequer nos
percebermos a nós próprios e, pior ainda, sem sequer termos vontade de. A exploração
do Eu e compreensão da nossa mente deveria ser a nossa prioridade.
O desespero, esse, vem daí mesmo.
Desta falta de cultura do Eu, da falta de tentativa de compreensão. Aqueles que
se tentam compreender, são vistos como estranhos. Aqueles lunáticos do mundo
artístico que não sabem o que fazem cá. Mas alguém sabe? Alguém de facto sabe o
que faz aqui, ali, acolá? Para onde vai amanhã, depois e depois?
Carregamos todos um desespero
constante de tanta coisa. Apesar de ser carregado por nós todos os dias,
raramente transparece aos outros o que efectivamente se passa dentro da alma.
Envoltos em tantas camadas de máscaras e protecções, foi-nos instigado que
mostrar desespero, mostrar fragilidade, é um sinal de fraqueza inadaptação
social. Mas se o cérebro e o pensamento humano são as nossas maior virtudes e
resultados de anos de evolução biológica, uma distinção única que nos manteve
como os seres mais bem adaptados a esta Terra durante tantos anos, como o
podemos esquecer tão facilmente, tanto as suas virtudes, como as suas
necessidades e fraquezas?
Ignorar estas verdades, é ignorarmo-nos.
Frequentemente jogamos às escondidinhas com a nossa mente. Há pensamentos tão
obscuros que assolam o Ser Humano que são guardados no canto mais recôndito de
nós mesmo, a salvo de nós mesmo. Tal e qual a nossa Caixa de Pandora, que
quando aberta, solta todos os males do mundo. Alguns pensamentos são tão
tenebrosos que nem ousamos tocar neles, pois quando o fazemos, soltamos todos
os males que existem dentro de nós, todo nosso lado negro e os pensamentos que
nos consomem por não ter solução, por se mostrarem terríveis verdades que a
todo o custo tentamos fechar os olhos. Pensamentos que acordam memórias que há
muito devia ter sido apagadas, mas que felizmente ou infelizmente, estão sempre
armazenadas algures, prontas a disparar impulsos eléctricos de dor. O desespero
é tudo isto, é uma espiral em queda, sem fim, sem ponta de começo, uma entrada
num carrossel que não pára até voltarmos a fechar a nossa caixa, a nossa mente,
porque não sabemos fazer nada mais, que isto mesmo.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
“Não podemos ajudar quem não quer se ajudado”
Algures no código genético, temos escrito uma parte
importante que dita a nossa existência. Esta parte refere-se ao instinto de sobrevivência.
Com ele, somos capazes de não só nos mantermos vivos, como em situações de
maior adversidade, conseguirmos ultrapassar limites físicos ou psicológicos.
Mas quando este instinto de preservação própria falha, o que
resta de nós? Ou quando não falha totalmente, mas se estilhaça em vários
pedaços, que resta dele e desses pedaços? Quando alguém desiste de si próprio,
os que ficam do outro lado, que podem fazer?
Ser espectador da destruição ou falta de auto-preservação de
alguém que amamos é uma dor constante. Esta dor é como uma dor fantasma. Apenas
com a diferença de uma progressão da perda de um membro que é tão nosso.
Depois de tudo fazermos pela pessoa, nos dedicarmos a isto e
aquilo. Fazermos o aqueloutro, possível e impossível. De tentarmos salvar esta
pessoa da sua própria miséria, daquele quarto escuro sem alguma luz, sabendo
que somos a pouca luz que resta nesse quarto. Que mais nos resta fazer, quando
a pessoa não quer ser ajudada?
É possível ajudar quem não quer ser ajudado? E qual é a quota-parte
de culpa se desistirmos dessa pessoa, depois dessa pessoa ter desistido de si
própria? Será possível termos forças para sermos a força de outro, mesmo depois
de ser desprezada a nossa ajuda, esforço, compreensão? Qual é a medida de
compreensão pelo outro que está mal, a medida do esforço, das soluções, das
horas, das lágrimas que nos pode indicar o limite de tudo isto? Que devemos
fazer quando infligimos dano a nós próprios, tentando salvar os outros do seu
próprio dano?
A salvação de alguém passa por esse alguém. Julgo que não
podemos fazer alguém interessar-se por si próprio ou pelo mundo que o rodeia,
por mais ajuda e amor que daremos ou tenhamos a essa pessoa.
Quando se atinge o limite, desiste-se, estarei eu a fazer
bem?
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Quanto mais penso que preciso de alguém na minha vida, mais me apercebo que preciso de mim próprio.
No fundo é isso mesmo. Temo-nos a
nós próprios e essa certeza deve ser bem consolidada na nossa vida. Afinal de
contas, fazer de nós próprios prioridade não é assim tão errada, já que se tudo
correr mal, é bom que nos tenhamos a nós próprios e que essa relação, de mim
para mim, seja boa. A mente pode ser um canto escuro se não for educada e
explorada e não devemos ignorá-la já que, nós só nos temos a nós próprios.
Elis Regina canta: “Eu preciso
aprender a ser só. Poder dormir sem sentir seu calor”. Apesar de sermos
mamíferos e sermos absolutamente dependentes uns dos outros, como sociedade. De
vivermos num ambiente tão inteiramente dependente de uns dos outros, onde a
componente social é uma fatia extremamente importante do nosso comportamento,
devemos ainda assim estimar esta relação que existe com o nosso eu.
Nada é garantido nesta vida. Nada
é certo e as certezas, essas, estão repletas de dúvidas e quanto mais vivo,
mais sei que nada sei. Aquilo que temos, mesmo a própria vida, é temporário e
portanto, mesmo a certeza de estarmos vivos pode apenas durar até ao próximo
dia. O certo é que nós temos a nós próprios e mesmo que partilhemos as nossas
vidas com quem quer que seja, a nossa individualidade, o nosso Eu, não pode ser
esquecido.
Quanto mais penso que preciso de
alguém na minha vida, mais me apercebo que preciso de mim próprio.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
"Both Sides Now"
Joni Mitchell canta, que agora, olha o amor de ambos os
lados. Do dar e receber mas, no entanto, continua sem realmente conhecer o
amor. De facto o que é que podemos dizer sobre o amor? Que certezas podemos ter
sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa na vida? Quanto mais velho fico, menos
certezas tenho; e não deveria ser ao contrário? Mais velho, mais conhecedor,
mais sabedor, com mais certezas?
Num mundo onde reina a ilusão como podemos distinguir o que
é real do que não é real? Já Fernando Pessoa dizia: “Não sei se é sonho, se
realidade,”. Nem mesmo tudo aquilo que achamos ter garantidamente, fica
connosco, garantidamente. Existe esta ilusão de uma perpetuidade que é só isso,
uma ilusão. Uma mistura com uma pitada de sonho, uma chávena de esperança e uma
colher de felicidade. Uma receita perfeita para manter os olhos fechados à
realidade. Mas, será que o sonho passa a realidade, sem deixar de ser o Sonho?
Haverá alguém com essa sorte? Ou será a vida uma realidade disfarçada a nós
próprios, onde a receita da ilusão nos serve para esquecer a Verdade?
A música acaba com: “Eu realmente não conheço nada da vida”.
E eu, de facto, não conheço nada da vida. Ainda ontem me lembro de dizer que
tinha a certeza disto e aquilo. Hoje aceno a cabeça, encolho os ombros, levanto
a sobrancelha e faço a cara de pouco entendedor aquando questionado com as
problemáticas da vida. Há um ano que a duas palavras que mais digo são: “Não
sei”. E realmente, não sei. Mas ainda tenho tempo para descobrir. Hoje tenho
uma certeza, pelo menos. Cada vez mais olhos para tudo com dois olhos. Olho
para o amor por um lado, pelo outro. Olho para a vida com um novo olhar, em
nenhuma direcção específica, olhos apenas. Há de acontecer alguma coisa.
27.10.14
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