quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Relógio e o Verme

Hoje, do meu pensamento desabrochou um rio de palavras. E do sono leve, um mau tempo de sentimentos. Dormi o castigo do mortalidade e vi o relógio que guarda o verme que cresce ávido no vazio dos ponteiros, para um dia se tornar em traça de asas felpudas, sair do relógio e habitar o meu coração podre.

Tic-tac Tic-tac.

Sonhei também acordado que a morte os levara e eu desamparado teria então de tomar conta da minha pupa, sozinho; com um medo que persegue alimentado pela solidão sombria que cresce com a idade, fazendo sombra nos lugares onde nunca pensamos faltar luz. E a solidão era profunda e quanto mais se adensava maior cresciam os medos velhos, as loucuras, as manias e as obsessões.

Tic-tac Tic-tac.

Tornamo-nos então em espectros dançantes ao som de um longo Requiem sem esperança de ter um novo andamento. Tocamos a peça a ritmo lento, para não acabar, mas vamos cometendo mais e mais erros nos compassos e nas cadências. Decadências. É o mistério da lagarta e da traça. Do relógio e seu espaço entre os ponteiros. Saber viver com ela sem que nos coma todo o espaço das horas com menos medo. Abro olhos para não adormecer, pois sinto que a largata se torna verme ávido pela noite, quando não estou atento. 

Estou na Holanda e tenho pais. Foi um sonho; acordado. E eles têm relógios e espaço entre os ponteiros. 


Tic-tac Tic-tac.

Tic-tac Tic-tac.

Tic-tac

Tic...

terça-feira, 28 de junho de 2016

Saudade, talvez

Seria mentira dizer que o sopro da vida me abandonou,
que o verde do jardim enfraqueceu depois das nossas Primaveras,
ou que o mar já não é salgado pelas lágrimas que verti nele em desespero de ti.
Mas eu sei que o meu sorriso nunca mais foi o mesmo.
Provavelmente estará também com o meu calmo sono
, que hoje, pouco ou nada me visita.

Tal como em qualquer inverno me pergunto se a Primavera virá,
pergunto-me também se algum dia virás devolver-me aqueles anos.
Talvez, de facto, sejamos como 
Psyche e Cupido,
ou talvez não, pois nem sequer coragem de aceder a vela tenho.

Desde então
, apenas vagueio dentro de mim mesmo.
Mais um ano e outro insuportável Outono que passa.
Pelo menos antes tinha algo para festejar para além dos (teus) tons castanhos.
Agora só as nuvens me acompanham
, chorando por mim.

Seria tolo dizer que ainda te amo, pois o amor não é eterno
Mas seria ainda mais tolo dizer que já não sinto amor.
Talvez o que queria dizer é que tenho saudades tuas.
Se não tivesse cosido a boca, dir-te-ia, com um sorriso.
Mas a vida obriga-me a sussurrar e eu sei que não ouvirás.

Despeço-me, com um sorriso.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

To my grandmother

It was when she died that finally I realize that distance is a mere illusion created inside ourselves. One that is as painful as feeling that death is an end. I came across with this feeling while facing death, not mine but of hers. The night she died I was sleeping in the expectation of seeing her the day after to say a last good goodbye. It was in this wondrous world of dreams, where life sometimes seems more realistic than real life that I dreamed of her.  We were at Gerês, a lovely protected forest in the North of Portugal. A dearest place in my heart that made part of my childhood and stayed in my heart so fiercely that today I still feel the need to go there at least twice a year. Gerês has relatively big mountains where small rivers are born from the peaks, descending in dazzling waterfalls of pure nature power. When I go to the waterfalls there is always a fair climbing protocol that must be followed. My grandmother was climbing the path towards the waterfall when I said “Grandma, I came from the Netherlands to visit you and seeing how you were. I thought you were weak in the hospital.”. She replied “give me a hand in this rock so I can climb. Don’t you worry. You know them, always worried…I’m fine”. The day after I was in my office in the Netherlands while leaving a meeting that finally I read in my phone a message from my mother saying that she has died. Now at last I see that distance  is not dependent of geographical position but rather of how far a heart is from another. I know now that she wanted herself to also say goodbye to me and that if dreams that are the other face of the world as we see it might not mean anything, I would say that for me would be hard to believe in that. I truly think that we can be with each other only by the longing feeling of missing someone or wishing to be with that someone. Once in a while I guess I’ll be able to see the waterfalls again with her as I still have been travelling a lot overnight with my other grandfather and through this cosmic experiences as distant as they might be, I’m still very close to them and so I’ll continue to be. And I know that for both of them, a rock in the way would never be a stop, but rather an adventure.


21.4.16

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

É com a morte que me lembro da vida

Apenas me lembro vivo quando sou assolado pelas foices da morte. Consigo-me então lembrar da minha existência e, mais ainda, da minha consistência orgânica, ditada pelas regras biológicas de um principio e um fim. Lembro-me que pouco mais sou que um fluido comprimido entre barreiras de osso, musculo e pele numa organização que ainda hoje faz maravilhar qualquer curioso pela sua harmonia e fluidez. Um liquido em transformação constante, revolto no seu interior, que mantém a outra parte não material que somos nós ou aquilo que é a nossa consciência. É com a morte que me lembro que o tão perfeito sistema foi desenhado para falhar um dia. Que a vida é um janela aberta num dia de verão, mas que deve ser fechada ao cair da noite para evitar o esfriar do anoitecer.

O meu avô costumava dizer que “andamos aqui a arrastar a carcaça”. Pois se de facto nos tornamos ilimitados pela nossa mente, somos ainda dependentes desta matéria que nos foi emprestada com um prazo de validade do qual não sabemos adivinhar e com o qual não podemos contar. Uma eternal dúvida se de facto um fim é um fim, ou se um fim é um inicio, tal como o Outono nos leva as folhas para mais tarde nos recompensar com outras cores em tempos mais primaveris. Se pelo menos pudéssemos fazer planos calculados Segundo o dia em que fica então terminada, pergunto-me como seria então a vida. Aliás, pergunto-me agora se, mesmo não sabendo, como devo planear a minha vida se os seus fios são tão frágeis como as sementes de dente-de-leão, mas no entanto nos agarram tão fortemente à terra pelas raízes mais fortes de uma árvore que parece tão frágil.

Dizem que a morte é apenas mais uma etapa desta viagem. Se assim o é, devo dizer que desconheço o seu destino e começo a duvidar de que malas hei-de levar. E se o destino é o nada, então qual o propósito de sequer as fazer? No fundo será como partir num comboio sem destino, sem saber as paragens e chegar ao final da linha sem saber, com malas vazias, pois já não lembramos, nem sabemos lembrar o que nelas havia. Se assim for, a morte é injusta, mas pior ainda será a vida que nos mostrou a sua beleza para que no fim nem sequer sejamos capazes de a lembrar. Uma fugaz visão da luz, como o homem da caverna que certamente depois de ver a Luz, nunca mais se contentará com a sombra.


Nas manhas de verão, voltamos a abrir a janela para deixar entrar o Sol que nasce de manha, na esperança que nos aqueça o coração esfriado pela geada. Talvez neste fugaz intervalo entre o amanhecer e anoitecer possamos ver as Luzes que pelo mundo brilham. E que neste incessante pulsar dos dias fique sempre a esperança de uma Primavera no fim de um Inverno rigoroso.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Falsas memórias

Quantos jogos de verdade e mentira fazemos, tal e qual como um jogo de xadrez connosco próprios, para nos cegarmos de uma verdade mais difícil de acreditar? 

Será que podemos dominar racionalmente o coração? Somos senhores da nossa razão, soberana sobre os sentimentos que nos assolam e nos consomem num crescendo de agonia e pavor face à impotência de sermos incapazes de domar esse tão selvagem animal que facilmente se desprende das correntes da racionalidade que tão bem arquitectadas foram? 

Ficamos eternamente presos aos prazeres que outrora sentimentos, de tal forma encruzilhados numa teia sem fim de sentimentos, agarrados à nossa memória por raízes mais fortes que centenárias árvores que testemunharam o passar dos tempos pacientemente percorrendo todas as primaveras e invernos, das mais belas aos mais rigorosos, respectivamente, que parece já não sabermos o sabor destes. Passamos a associar os tão estimados prazeres às memórias daquela pessoa, ou daquele tempo em que a Luz era mais clara e a Escuridão menos arrebatadora. Porque o amor tem o poder de nos fazer ver este mundo com mais ânimo, que por vezes se apresenta tão desfocado e desprovido de cor, que a ideia de o vivermos todos os dias nesta solidão de alma é mais aterradora que a própria morte. 

É então que mergulho no ridículo de pensar de mim para mim naquela rua, naquela roda-gigante, naquela música sem sequer ter oportunidade de prender de novo o indomável animal que teima em se escapar por entre os interstícios de mim mesmo. O amor é um vírus que nos consome os nutrientes na sua fase proliferativa, deixando-nos embriagados num febre temporária, até esta desaparecer e ficarem os resquícios dos seus competentes e finalmente cair na dormência, ou seja, sem nunca sair do nosso corpo. De tempos em tempos, como um vulcão pensado extinto, volta para nos assombrar o sistema imunitário. 

No entanto, após visitar lugares que se cristalizaram na minha mente como sagrados e grandes pedaços de um sentimento, igual àquele amigo que não desejo rever, apercebo-me que já não são os mesmos. Que os mesmo lugares são agora outros disponíveis a novas memórias e que o que, tal como no famoso cemitério dos famosos, o Père-Lachaise,  onde já não se encontram as pessoas, mas sim um pedaço quase invisível do que elas foram, chega-se à conclusão que a ansiedade de reencontrar estes lugares rapidamente se apaga com um sopro como a chama de uma vela ao dormer. E, na verdade, tal como a ansiosa espera de sentirmos algo com as campas daqueles que admirados, sentimentos nestes locais outrora cristalizados exactamente isso, nada. E hoje esses mesmos sentimentos que se apresentavam como os próprio Atlas do nosso parasita sentimental, da nossa obsessão pelo um passado que foi perfeito, são hoje apenas túmulos, estátuas, raízes e pedaços de pedra abandonados num lugar que já não é o mesmo. Fico aliviado por saber que o tempo, tal como a Justiça, tem os olhos vendados, castigando imparcialmente. Consigo ver as cicatrizes que carrego na cara desses sentimentos que tão estimáva e penso: quando é que eu me dediquei a amar tanto isto? Afinal, de facto, o amor e os seus sentimentos são passagens regularmente acompanhadas de delírios da nossa percepção, fotografias tiradas com os olhos durante uma viagem de comboio em que os pormenores se apresentam indistintos e desfocados pela velocidade da viagem. Voltando atrás aquele tempo vejo o quão ignorante era e isso faz-me lembrar duas coisas: o quanto cresci e me expandi como um gás compresso numa pequena botija e quanta ignorância tenho ainda a perder até ao fim da minha vida. Ai que vontade de ver todos os pores do Sol, de acompanhar o principezinho na sua viagem pelos planetas e poder sentar-me e levanter-me para ir vendo um constante pôr do sol no seu planeta. Que liberdade!

sábado, 8 de agosto de 2015

De um lado para o outro.

Enquanto finjo ser um malabarista do meu próprio corpo numa viagem oscilante entre dois carris de ferro presos ao chão questiono me sobre a vida de quem me faz companhia. Cada um de nós leva consigo uma série de bagagens intermináveis que talvez possam passar despercebidas num primeiro olhar mas que facilmente fluem até nós como água num milagre osmotico de sentimentos e sensações escritos num código tão antigo quanto a nossa espécie.

Esta bagagem pessoal prende se na cor da pele das crianças negras que se sentam ao meu lado, com o seu cabelo encaracolado e as suas caras curiosas, cheias de vida e verdadeira felicidade. Aquela ingénua de quando nada se sabe porque pouco se viu ou pouco se soube ainda. E assim se vão divertindo a tirar fotos a si próprios com caras de tigre ou leão enquanto o pai, livre como todos os outros passageiros, carrega ao pescoço uma corrente de elos metálicos que outrora poderiam ter outro significado mas hoje é apenas um adereço da Dolce&Gabbana, aproveita o lugar sentado para dormitar. Enquanto me distraio pela trepidação vejo uma idosa, sentada duas cadeiras à frente, que veste umas roupas largas e soltas com padrões orientais. Poder-se-ia dizer que sobre ela se abate todo o cansaço de uma vida. Por detrás dos seus óculos elípticos existe um peso que faz tombar os seus olhos intervalado pelo esforço inútil de os manter abertos e desportos ao mundo. O peso vence mesmo sob o burburinho atrevido que se faz sentir na carruagem. E nem mesmo o som das crianças atrás parece ter efeito perante o embale da viagem. No entanto, nem o entardecer do dia, com as suas cores mais quentes reflectidas nas paisagens bucólicas que intercalam uma civilização da outra, nem o cansaço físico que finalmente encontra descanso nos estofos azul-turquesa do comboio parecem vencer a senhora de cabelo cor de trigo que se encontra justamente sentada ao lado da personificação do sono. Pelo contrário esta leve senhora, claramente uma turista, mas não de longe já que fala francês fluentemente, traz vestido um calção branco curto com uma camisa às riscas azuis e brancas. Tão profundamente posta em si mesma quase sobre um código de estritas regras, são poucos os músculos da sua face que se mexem face ao ambiente irrequieto que agora se faz sentir ou tudo o resto que esta viagem proporciona. Delicio me com a sua calma inviolável e a sua simplicidade tão complexa que lhe fez escolher uma pulseira de pedras azuis e transparentes que combinam com os seus olhos azuis safira, também estes cansados mas de uma forma diferente da sua vizinha.

Pergunto o que pensarão eles de mim enquanto penso neles e em todos os outros que já entraram e já saíram. Sempre associei viagens de comboio à própria vida. Fico aqui a assistir a entrada e saída das pessoas sendo tocado por elas por laços invisíveis tornando me eternamente ligado por frágeis fios de seda. Afinal de contas que poderá ser a vida senão mesmo uma viagem de várias cores e sentimentos. Um cruzar de vezes, com reencontros esporádicos. Uma viagem de várias paragens em que todos sabemos o início e o destino, sem saber o percurso, mas sempre com a certeza de poder apreciar quem viaja connosco e quem nos gentilmente oferece sorrisos sem esperar nada em troca. Não tarda nada já saímos na última estação.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Talvez morrer seja devolver algo que pedimos por empréstimo.

Por vezes acredito que só consigo ser feliz quando estou triste. Talvez assim faça sentido esta dualidade de forças contrárias, outrora explicadas na física e as suas leis. Se existe uma força, existe outra contrária. Os momentos mais felizes quase sempre são resultado da ausência da infelicidade. Tal como a saúde é um estado transitório da doença, como dizia o meu Avô. Engraçado como parece que andamos todos a fazer coisas contrárias àquelas que queremos ou mesmo cultivar imagens de nós próprios que não são aquelas com as quais nos identificamos ou queremos que sejam reconhecidas pelos outros.

Tal como quando duas forças de sentidos contrários se anulam quando os seus valores se igualam, também nós parecemos não nos movermos no espaço e no tempo, presos num referencial, numa translação estática, sem sentido, perdidos pela falta de moção. Num jogo de forças neuronais, qual vence? Serei puxado para um dos lados ou simplesmente flutuo pelas minhas memórias, estagnado, gravitando entre as lembranças, num país que já não aparece nos mapas e que figura apenas em livros de História?

Sempre lamentarei a vitória só corpo sobre a minha mente, ou da minha mente sobre o meu corpo. Ainda não sei distinguir. Talvez de facto aqui gostasse que a força resultante foça nula e que a soma dos meus pensamentos fosse igual a subtracção da minha componente orgânica, à qual todos nos achamos dependentes até ao fim da sua função. Ora aqui fica evidente que o corpo ganha este jogo de regras subtis, uma vez que toma decisão sobre o seu fim, mesmo que a mente não tenha encontrado em si o mesmo destino, a mesma decisão de término. Ou talvez será de facto a mente que, ao se enrolar em si própria num novelo sem pontas, acaba por dar vários nós ao corpo que gentilmente os vai tentado aceitar e resolver, talvez mesmo se adaptar até já não haver solução.


Acredito mesmo que somos invariavelmente a resultante de todas estas forças e que elas não se aplicam a nós, como a tudo o que envolve. E que por cada acção que praticamos, um outra é desencadeada numa cascata de acontecimentos que pouco ou nada somos capazes de prever. Tão fácil como saber que por cada semente que plantamos, mais oxigénio do qual somos dependentes estará mais disponível. Talvez morrer seja apenas devolver algo que pedimos por empréstimo. 

domingo, 7 de junho de 2015

O céu azul da Holanda


Enquanto uso a relva como berço para as minhas viagens entre um estado meio desperto, meio entorpecido, encontro-me diante uma bela pintura holandesa, coberta pelos seus tons subtis entre cinzentos e brancos que cobrem este céu de Primavera tímida, pintando aqui e ali com o borratar de pincel que confere às nuvens um face indefinida, amorfa, mas com um carácter celestial e angelical, tal como dois polos do mesmo corpo celeste, fazendo destas senhoras o motivo do meu reparo inicial. Deito-me a ostentar esta gratuita beleza e também as outras belezas – aquelas esquecidas e apagadas pelo peso das cidades. É então que consigo perceber a dança das cores nas telas das pinturas dos grandes artistas Holandeses; dos traços cuidados, fluídos que cantam o som do vento rodopiante que faz avançar as nuvens, mudando a condição atmosférica ao mesmo compasso presto usado pelo mar para fazer avançar as suas ondas sobre o pálido areal.

Sinto a relva a tocar-me o corpo. Sinto-o como uma comunhão com a Natureza há muito perdida entre o homem e aquela que o criou. Ao deparar-me com as nuvens, compreendo também os seus movimentos que aos olhos desatentos que pelo céu passam, poderão julgar ser aleatórios, mas que com o cobrir da luz do Sol pelos seus véus brancos, num intervalo de tempo suficiente para observar todos os detalhes agora revelados pela sombra, rapidamente percebe-se que as nuvens, tal como eu e a relva que me amortece, aproximam-se timidamente umas das outras, apenas se tocando e eventualmente se fundido, se assim se sentirem dispostas ou o vento da vida o ditar. Tal como as nuvens – essas massas de ar deambulantes, aparentemente semelhantes entre si, dispostas num céu de diferentes tonalidades de azul, amorfas e indistintas – também nós nos governamos (ou somos governados) por estas regras invisíveis, tocando a massa amorfa dentro de um outro, apenas quando uma brisa mais forte de vento se faz ressoar sobre o prado verdejante, numa tarde de Sol, sobre as camas de Natureza que nos acolhem na pequena clareira verde.

É então que fecho os olhos a este mundo para a seguir abrir a um outro. Se a viagem anterior pode ter parecido interessante, a que se seguiu transforma a primeira numa experiência completamente banal. Dormitar ao sabor do som de melros, pardais, cigarras, abelhas, entre outros seres vivos, todos ocupados com o seu próprio microcosmos, com os seus fazeres preocupados e sistemáticos, permite-nos viajar para lugar incerto, sem malas, sem hora de ida ou de volta. Uma viagem que não segue as dimensões a que estamos sujeitos e projectados, onde nem o impiedoso tempo nos faz escravos e onde os limites são ilusões. Neste estado de dormência não posso viajar-me pelas nuvens, mas sê-las e pintar-me com o pincel de pêlo de boi. Pincelar-me ao tempo de tons brancos sobre o céu e fazer-me voar ao sabor do meu vento, fundindo-me e separando-me a meu bel-prazer, criando a minha própria linguagem subtil, o meu próprio admirar de um outro mundo em que as minhas asas são lágrimas do céu e os raios de sol abatem-se sobre mim numa apetitosa sensação de paz e …

É então que acordo entorpecido e confuso, pois sempre que se faz uma viagem, seja ela qual for, o acordar é seguido pelo desconforto de não se saber onde está. A luz decomposta pelos seus raios de Sol ainda me fere os olhos e é então que vejo lá em cima aquelas brincalhonas. Já não são as mesmas, agora outras, com novas formas e feitios. Poderia olhar para elas o dia todo. Apesar do sorriso imposto pelas novas, não consigo deixar de ficar triste pelas que já foram. Como gostava delas.

domingo, 26 de abril de 2015

Escolha

Sê brando comigo.
Não escolhi ser assim.

Gostaria de poder dizer que sou este e aquele, mas afinal de contas, sou mesmo isso, nada.
Um nada que é um todo. Um todo cheio de vazio no seu interior.

Estou partido em vários pedaços, retalhos de uma ideia, de um pensamento.
Mas até a praia paradisíaca é composta por mil grãos de areia.

Eu não escolhi ser assim.
Não escolhi ter o reflexo que vejo na poça de água.
Não escolhi  sentir isto, ou aquilo, ou nada.
Não escolhi fechar os olhos quando não queria ver.
Não escolhi amar, nem morrer.

Não provarei a dor que há em mim.
Deixarei passar como faz uma bela espectadora

Deixarei o vento soprar, pois ele sabe para onde vai e eu não.
Deixarei a chuva molhar e lavar o tempo.

Eu não escolhi ser assim.
Um todo que é nada constantemente.
Um chorrilho de disparates com sentido,
Um novelo sem ponta ou fim, emerenhado em si próprio,
Sofucado pelo seu próprio peso,
Em toneladas de pensamentos turvos,
Outros escuros e outros ainda mais escuros.

Eu escolhi ver. Escolhi ouvir. Escolhi provar.
Escollhi fazê-lo em frente, sem que paisagens de trás me distraissem.

Quando me voltei, segui em frente.
Não deixei mais espaço ao olhar, nem ao pensar.
Porque se chorasse mais, faria oceanos.
Se pensasse mais escreveria livros.
Se me demorasse mais, não daria passos.

Eu não escolhi ser assim.

Não escolhi aceitar a dor em vez de a viver, ainda que a viva todos os dias.

domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa

Aparentemente hoje Jesus ressuscitou. Não sou católico, nem acredito na religião e na sua doutrina. Ainda assim vejo esta data como forma de ressuscitarmos pessoas. Se a lei de Lavoisier postulou que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma então, irremediavelmente, haverá sempre um pedacinho de nós que aqui fica, já que daqui veio. Tudo isto nos é emprestado. Até o próprio sangue que nos corre pelas veias do nosso corpo, carregando o oxigénio que nos mantém vivos, pelo trabalho da hemoglobina, possui hoje o ferro que um dia pertenceu à morte de uma estrela. A morte para dar lugar à vida. Somos todos pequenos pedaços de algo maior, seja Deus, sejam Vários, ou outra Coisa qualquer, reconhecer a importância desta irmandade é fundamental para entender a vida

 A divindade em si, existe quando me deleito a contemplar um ramo de uma árvore que levemente baloiça sobre a brisa quente de uma tarde de Abril em que as folhas novas da Primavera dançam com o vento sobre um compasso que tento entender, ao som de umas notas orquestradas por algo invisível. Delicio-me a olhar para a minha gata que levemente lambe a sua delicada pata branca num torpor melancólico primaveril, sob a preguiça teimosa do sol embalador que nos deixa tombar os olhos. Se eu e ela não somos o mesmo. Se eu e ela que nos rendemos ao calor do mesmo astro ardente, perante a mesma espirelada galáxia, não somos o mesmo, então que somos nós? Gato e humano?

Frequentemente nos esquecemo de calcar a relva e ver a natureza. De sentir cada húmido pedaço de planta debaixo (curiosamente) da nossa planta dos pés. Que bom é calcar a relva. Que bom é o sol. Que bom é o silêncio. O nosso silêncio. Hoje ressuscitou. Ressuscitou na minha memória estes pedacinhos de todos nós, aqueles que já não me fazem companhia ao almoço que hoje recheou a casa de cores e odores, de conversas e olhares de quem se conhece e reconhece, espelhos entre espelhos, numa dança em que já se adivinham os passos de cada um. Ressuscitaram na relva, no Sol, nas folhas que brincavam ao vento, ou na música que tocou à refeição. Foram os adagios, com os violinos a cortar o ar. Foram as vozes francesas e belgas dos cantores de outrora que te fazem ressuscitar e que sempre farão. A Páscoa é isso mesmo. O amor ressuscita, seja o que for, seja quem for.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Caminhos rochosos


Aqueles que por mim passaram, foram deixando um rasto da sua presença nos pequenos detalhes deste frágil voar de borboleta que são as nossas vidas. Hoje vejo que não sou um, mas vários. Que não sou eu, nem o outro, mas outrem. Cada um que passou, com o seu polegar, ora leve, ora grosseiro, deixou um moldar do barro que hoje faz a escultura que não acaba e não acabará até estar concluída e finita, e quem sabe, até voltar a ganhar outra vida, outro sentido.

Nas pequenas actividades do quotidiano, há traços deles. Seja pelo hábito que ficou, seja pelo livro que hoje releio com saudade, ou até pelo gesto feito em palavras que me soam comuns a algo que já não é, já passou. Estas memórias assemelham-se a gigantes afloramentos rochosos no topo da montanha, soldados graníticos resistentes à erosão do tempo. São com elas que traçamos o mapa geográfico da nossa vida. São as rochas que param o tempo em nosso redor, como um intervalo estagnado dentro de algo que não pára, que é o tempo.

Estes seres graníticos, que nos olham sem olhar, do topo da montanha, relembram-nos do que vivemos e do que já passou. Os mais aguçados que ainda hoje nos fazem tropeçar na calçada invisível daquele caminho que julgávamos extinto, ensinam-nos que as feridas demoram a sarar e que qualquer momento nos serve de aprendizagem para futuras quedas. Os mais macios, já erodidos pelo vento e as lágrimas, com superfícies que agora reflectem a luz do Sol, onde já nos podemos recostar para o nosso leve voar de mente, servem-nos agora para deliciar do que já foi e já passou. Porque ainda que tudo esteja destinado ao fim, não quer dizer que não possamos sorrir com a lembrança do outrora. Perderemos tempo a chorar o fim da Primavera, senão olharmos para o futuro que nos aguarda com outra e outra Primavera diferente.

Hoje entendo que há males que vêm por bem. Que os locais mais inóspitos da nossa Terra são só mais protegidos por obstáculos. E que se não soubermos ser infelizes, nunca chegaremos a ver a felicidade que nos é apresentada todos os dias. Abri os olhos, para que a boca pudesse sorrir, porque afinal estavam certos, é de novo Primavera.


Onde as nuvens formam a pálida neblina do amanhecer lá na Serra, onde o silêncio só pode ser quebrado pelas nossas infames palavras e a sinfonia que se ouve é só e apenas do crescer das nossas almas, é onde agora, com atenção, no dispersar da neblina, se avistam as rochas cobertas do verde, do amarelo, do roxo, do azul  do vermelho, dessas tão inteligentes cores que não só atraem as abelhas para a polinização, mas atraem uma vez mais, o nosso sorriso. Agora sim, deitar-me-ei no amolecido granito já hospedeiro e brando pelo passar do tempo.

terça-feira, 17 de março de 2015

Amor a prazo

Na era do plástico e do descartável não seria de admirar que o amor fosse imune a este vírus que é o tempo, ou a sua escassez. Curiosamente, o tempo, tal como acontece quando as nossas mãos juntas em concha numa tentativa frustrada de albergar água, sofre o escoar da sua dimensão e volume pelas frinchas criadas pelos dedos até que o que dele resta no fundo, tal como a água, é feito refém da evaporação até a sua finitude. O tempo sempre teve pressa e sempre correu a nosso desfavor. Tempus fugit. A arte por detrás do tempo prende-se com a escolha inteligente da sua utilização. Sendo que a falta dela -utilização - é já por si só uma escolha e uma utilização. Tempus fugit.

Nesta nossa época, em tempos de múltiplas oportunidades e liberdades, opções de todas as cores com disponibilidades imediatas, ou substituições fáceis justificadas pela pressa de não perder o novo ou o alternativo, age-se com uma fome de viver e conhecer, em que tudo deve ser célere. Assim sendo, no amor, também somos vitimas e culpados desta nova rapidez. A dedicação que outrora existiria é agora vista como perda de tempo. E essa perda é considerada irracional. Tempus fugit. Os sentimentos que devem ser nutridos e cuidados, que devem constituir uma parte integrante do nosso tempo e que, aliás, deveriam ser a razão pela qual vivemos, são agora desprezados e/ou substítuidos por fracas imitações dos mesmo, como imitações de quadros em museus que facilmente são dectadas por olhos atentos de quem as observa.

Custa-me entender o olhar que hoje temos do mundo. Esta cultura do fácil e do agora afasta-nos do essencial e do verdadeiro. Custa-me perceber como vemos o amor de forma tão diferente. Como facilmente os anos se transformam em aborrecimento e toda a dedicação a uma só pessoa se torna, num momento só, em nada. Como pode ser mais fácil desistir-se de alguém e de algo que tanto tempo nos levou a construir, do que a ideia de construir de novo e do principio todo o sentimento que, como um castelo, foi construido pedra por pedra até atingir essa rara altura em que das torres já nos é díficil destinguir o chão?

A facilidade com que se salta de pessoa para pessoa, de sentimento para sentimento causa em mim um infinito terror do valor que nos é dado e do valor que damos aos outros. No fundo, no meio desta confusão de se ter pressa, mas procurar-se alguém para o futuro, somos os inimigos de nós próprios, adulando esta imagem de nós mesmos, como merecedores de mais e melhor, condenados a este individualismo e desapego pelos outros, tal como Narciso se afogou de tanto se amar. E, este entendimento que temos pelos outros, este buscar da verdade dos outros é tão pequeno que apenas acordamos com a nossa verdade, sem sequer nos percebermos a nós próprios e assim dormimos sem alguma vez termos percebido os outros. Um tempo em que tentar perceber o outro e o seu mundo, em que tentar decifrar as miríades entranhas de um universo tão complexo de alguém - porque no fundo cada um de nós representa um mundo aos olhos dos outros – tornou-se tão algo tão dispensável e desinteressante que acabou sendo substituido por assunções e julgamentos de como de facto sera a vida do outro. No fundo, não se procura saber nada, nem sobre os outros, nem sobre nós próprios.


O tempo determina também um prazo. E assim estamos todos sujeitos a este prazo, seja pelo tempo que aqui permanecemos, ou pelos prazos que o tempo nos impõe ao longo da vida pelo caractér temporário característico das coisas. Estes prazos são cada vez mais curtos, comparando, ironicamente, com o aumento do tempo de vida. O nosso presente já está no futuro e o hoje tornou-se no amanhã, numa frenética corrida pela novidade. Assim se chega a conclusão que o mesmo se passa no amor. Não existe tempo para construir o castelo, mas deseja-se tê-lo. Por outro lado, quando não avistamos bem o chão do alto das suas torres, já o chão nos parece tão mais interessante, tão cheio de novas experiências. O problema está novamente na forma como olhamos em redor. Tal como na utilizaçãodo tempo depende do nosso descernimento pela correcta visualização da verdadeira beleza, no topo do pináculo do nosso castelo se oharmos para cima, veremos que as formas das nuvens no céu são agora mais nítidas e mais belas, libertando-nos da curiosidade do chão.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Querido Avô

Querido Avô,


A saudade, essa tão Portuguesa palavra que só nós compreendemos, mais que o sentir falta de algo, é um sentimento com o qual crescemos e não sabemos explicar. É uma mistura do que é bom com o que é mau. Um dissabor melodioso, que nos permite chorar, tremer, soluçar, mas continuar a querer sentir aquela amarga dor.

Perder alguém que nos observou de perto, é perder parte de nós. Até hoje sufoquei só a possibilidade de pensar na ausência. Hoje dói mais. Dizem que não há dias para chorar alguém. Não há dias para se ter saudade de alguém. Que ela está presente e vem e volta quando quer e aparece. E assim foi. Durante este ano, sombra silenciosa, intrometeu-se no meu coração. Por vezes deixando um leve sorriso, outras um pequena e tímida lágrimas. Mas noutras, um grande soluço e uma falta imensa.

Eu hoje choro. Choro-te, enquanto ouço a banda sonora do “Mon oncle” de Jacques Tati que tantas vezes vimos em conjunto. Relembro na personagem principal cada pequeno pedaço de ti. Mais do que outra qualquer memória, todas estas notas da apetitosa melodia do filme transportam-me para ti. O filme é quase todo ele passado em silêncio, tal com os outros filmes do Charlot que víamos. Eu costumava observar-te quando estavas em silêncio. Ficavas várias vezes absorto, dentro do teu mundo, franzindo a testa, coçando a cabeça e pensado na próxima coisa que ias criar. Não há nada mais bonito que essa memória, de te ver no Gerês, passeando pela casa com este e aquele projecto, sempre ocupado.

Há um ano atrás desejei que te fosses, que te apagasses e acabasse todo o teu sofrimento. Quis que não tivesses de te sentir a deteriorar, como bem dizias: “Ando a arrastar o cadáver”. Nunca me esquecerei da última vez que te vi. Perto da morte, cheguei a perto de ti e beijei-te a testa e disse: “Adeus avô”. Hoje só te queria aqui por perto.

Disseram-me ontem que nada, nem ninguém é insubstituível. E que cada parte de alguém está sempre em nós. Assim o é. Perpetuamos a presença de alguém pela sua memória e porque hoje sou quem sou, pelo que me deixaste. Tudo na vida tem o seu fim. E mesmo as bonitas flores na jarra, com tons amarelados e brancos padecem perante os ventos do tempo que nunca deixam de soprar. Mas como tu sabes, neste mistério que é a vida, neste mistério que é a morte, haverá com certeza uma ordem: a da renovação. Não somos substituíveis, pois permanecemos nos outros, na sua pele, nos seus cabelos, nos seus olhos, na sua voz, na sua cabeça, mas esta dor de não te ter aqui é-me consolada pela presença de outras pessoas e de outros sentimentos.

Gostava de te poder beijar novamente, não aquele avô deitado no hospital, mas o avô que ensinou a moldar o barro e criar obras de arte que hoje perpetuam a forma como tu sempre viste a vida. A forma como conseguiste dar vida ao pó e à água e de eles ter renascido algo que nunca terminará.

Esta é a carta que nunca te consegui escrever. Mas há o ano atrás chorava por ter acabado o teu sofrimento. Hoje choro por não te ter.

Hoje choro, mas não choro tudo. Mas também, nunca ninguém chorou tudo o que tinha a chorar.



Com uma enorme saudade do teu neto que te ama,


David

(23-12-14)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Amor

Eu já me enganei tanto contigo.
Já te conheci, já te esqueci.
Já te lembrei, já te desesperei.

Olhei em redor e estavas,
mas logo desapareceste. Sumiste!

Por vezes chegaste de mansinho,
pela calada. Com um cuidado andar,
entraste por essa porta que é a minha vida e…

Deixe-te entrar, acolhi-te.
Acaricie-te, sem saber como ou porquê.
Sem te perceber, ou querer.
Jurei-te e prometi-te.

Mas tu foste-te. Foste-te.
Sem avisar saíste daqui, deixando um rasto,
pintando cada parede de cada sala do meu corpo,
deixando a lembrança fraca da tua existência.

Esqueci-te. Achei-te longe de mim.
Quando no outro dia espreitaste pela porta,
não quis acreditar ver.



Perguntei-te: “Voltaste?”
Não respondeste.

Achei-te tímido, mas voltei a acreditar.

9-12-14

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Ecos

Quantas vozes tem uma estreita multidão?
Quantos gritantes murmúrios padecem,
face à asfixia do tudo e do todo,
que implacavelmente nos conduz, ordeiramente?


Que se berre, que se chore, quem nos ouve?
De que coragem dispomos para encontrar a gota,
aquela perdida, no meio de tantas outras,
que da mesma água não é feita do oceano a que pertence?


No silêncio da velhice, um sussurro enche a sala,
Pinta de cores quentes o espaço entre as notas tocadas,
Dando sentido à existência de uma sombra, já fugaz.


No entanto, só aquele engendrado plano,
capaz do pintar de asas de uma borboleta,
se encontra razão para tal murmurinho de tão tremendo significado.





Dedicado ao João Monteiro

26-11-14

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Memórias...

Com um suave dançar de dedos nas teclas um piano ganha o seu canto, fazendo vibrar as suas diferentes cordas vocais, com pequenos martelos que, suavemente, embalam um ouvinte numa torrente de ambíguas memórias. Como uma Nocturne de Chopin uma memória desenrola-se do seu doce novelo, fazendo valer cada acorde, cada bemol, cada pausa, numa apetitosa melodia que ora pode ser doce, ora amarga.

Incrível a forma como funciona. É capaz de banhar todo o nosso pensamento, como uma só gota sensorial, transportando-nos para outro qualquer sítio, ou mesmo outro qualquer Eu, no passado. O passado, esse, reserva-nos tanto e tão pouco. Se por um lado nos educa para o presente, com a sua voz autoritária e paternal, também nos entorpece a razão, tornando-nos letárgicos ao presente, permitindo-nos navegar por o grande oceano da nostalgia e da saudade. Saramago dizia: “O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas”.

Há, no entanto, em cada um de nós, uma velha caixa, seja ela física ou imaterial, onde os objectos de outrora são guardados por nós e a nós. Mergulhar nessa caixa é correr o risco de se ser assoberbado por sorrisos, surdos gemidos, prantos, ou mesmo acesos de raiva e incompreensão. É extraordinário como um simples pequeno papel pode inflamar uma rede de neurónios tão bem preservada, capaz de transformar sinais físicos em eléctricos, devolvendo uma emoção que em nada é tímida. E o cérebro, bom entendedor, também ele nos devolve uma reacção física, seja ela uma lágrima, um sorriso, ou mesmo, com o auxílio dos pulmões, um vultosa gargalhada.

As memórias que mais me entorpecem, pela beleza que lhes é inerente, são as cartas. Sejam elas em postais, ou grandemente letradas, representam sempre promessas de algo. Pelo menos, promessas de fazer chegar algo a alguém. As cartas são as melhores memórias, pois, em si, já são memórias quando as recebemos. Enquanto vasculho, no meio de tanto e de tudo, deparo-me com postais de uma tia querida. As cartas são registos da nossa existência e dos outros. Viajantes incansáveis que fizeram chegar tanto a muitos. São belas, porque tal como Hérmes, o mensageiro, fazem chegar algo que aparenta tão pouco e que significa muito. E hoje, são elas que me fazem chegar a mim a memória de outros tempos e de outras pessoas que já foram. A memória de outros sentimentos que entretanto o tempo me fez esquecer. A memória de promessas perdidas pela distância. A memória de amores que já foram e que hoje olho para cada um deles e para as carta que leio com duas caras.


Enquanto o piano vai cantando a tua memória vai alimentando e acalentando esta colmeia eléctrica que é o meu cérebro. Por fim o silêncio, até ver. Obrigado.




25-11-14

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Desespero


Ao fim de dezoito anos de estudo, nunca me foi ensinado como lidar com o desespero, ou sequer como antevê-lo. A verdade é que todos nós somos assolados por ele na vida. Todos nós temos um medo aterrador de tudo, do início, da continuação, ou do fim. No entanto nunca nos ensinam a lidar com tudo isto. Ensinaram-nos matemática, ciências, as línguas, os poemas, os escritores, a história do nosso país, dos outros, da humanidade, dos impérios, do que já foi, do que é e do que virá a ser. Infinitos exemplos de infinitas repetições. Ensinaram-me a ler, a ver, a escrever, a falar, a ouvir, mas não a sentir.

Em todo este processo educacional extenso, como se negligenciou algo tão importante, tão único do nosso ser, que parece continuar a ser coberto por um véu preto intransponível? Vivemos de sentimentos, movemo-nos por sentimentos sem saber o que são, ou sequer ter a sua compreensão.
Depois de tanta repetição de nós mesmo, após anos de civilizações, de exemplos continuamos sem sequer nos percebermos a nós próprios e, pior ainda, sem sequer termos vontade de. A exploração do Eu e compreensão da nossa mente deveria ser a nossa prioridade.

O desespero, esse, vem daí mesmo. Desta falta de cultura do Eu, da falta de tentativa de compreensão. Aqueles que se tentam compreender, são vistos como estranhos. Aqueles lunáticos do mundo artístico que não sabem o que fazem cá. Mas alguém sabe? Alguém de facto sabe o que faz aqui, ali, acolá? Para onde vai amanhã, depois e depois?

Carregamos todos um desespero constante de tanta coisa. Apesar de ser carregado por nós todos os dias, raramente transparece aos outros o que efectivamente se passa dentro da alma. Envoltos em tantas camadas de máscaras e protecções, foi-nos instigado que mostrar desespero, mostrar fragilidade, é um sinal de fraqueza inadaptação social. Mas se o cérebro e o pensamento humano são as nossas maior virtudes e resultados de anos de evolução biológica, uma distinção única que nos manteve como os seres mais bem adaptados a esta Terra durante tantos anos, como o podemos esquecer tão facilmente, tanto as suas virtudes, como as suas necessidades e fraquezas?


Ignorar estas verdades, é ignorarmo-nos. Frequentemente jogamos às escondidinhas com a nossa mente. Há pensamentos tão obscuros que assolam o Ser Humano que são guardados no canto mais recôndito de nós mesmo, a salvo de nós mesmo. Tal e qual a nossa Caixa de Pandora, que quando aberta, solta todos os males do mundo. Alguns pensamentos são tão tenebrosos que nem ousamos tocar neles, pois quando o fazemos, soltamos todos os males que existem dentro de nós, todo nosso lado negro e os pensamentos que nos consomem por não ter solução, por se mostrarem terríveis verdades que a todo o custo tentamos fechar os olhos. Pensamentos que acordam memórias que há muito devia ter sido apagadas, mas que felizmente ou infelizmente, estão sempre armazenadas algures, prontas a disparar impulsos eléctricos de dor. O desespero é tudo isto, é uma espiral em queda, sem fim, sem ponta de começo, uma entrada num carrossel que não pára até voltarmos a fechar a nossa caixa, a nossa mente, porque não sabemos fazer nada mais, que isto mesmo. 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

“Não podemos ajudar quem não quer se ajudado”

Algures no código genético, temos escrito uma parte importante que dita a nossa existência. Esta parte refere-se ao instinto de sobrevivência. Com ele, somos capazes de não só nos mantermos vivos, como em situações de maior adversidade, conseguirmos ultrapassar limites físicos ou psicológicos.

Mas quando este instinto de preservação própria falha, o que resta de nós? Ou quando não falha totalmente, mas se estilhaça em vários pedaços, que resta dele e desses pedaços? Quando alguém desiste de si próprio, os que ficam do outro lado, que podem fazer?

Ser espectador da destruição ou falta de auto-preservação de alguém que amamos é uma dor constante. Esta dor é como uma dor fantasma. Apenas com a diferença de uma progressão da perda de um membro que é tão nosso.

Depois de tudo fazermos pela pessoa, nos dedicarmos a isto e aquilo. Fazermos o aqueloutro, possível e impossível. De tentarmos salvar esta pessoa da sua própria miséria, daquele quarto escuro sem alguma luz, sabendo que somos a pouca luz que resta nesse quarto. Que mais nos resta fazer, quando a pessoa não quer ser ajudada?

É possível ajudar quem não quer ser ajudado? E qual é a quota-parte de culpa se desistirmos dessa pessoa, depois dessa pessoa ter desistido de si própria? Será possível termos forças para sermos a força de outro, mesmo depois de ser desprezada a nossa ajuda, esforço, compreensão? Qual é a medida de compreensão pelo outro que está mal, a medida do esforço, das soluções, das horas, das lágrimas que nos pode indicar o limite de tudo isto? Que devemos fazer quando infligimos dano a nós próprios, tentando salvar os outros do seu próprio dano?

A salvação de alguém passa por esse alguém. Julgo que não podemos fazer alguém interessar-se por si próprio ou pelo mundo que o rodeia, por mais ajuda e amor que daremos ou tenhamos a essa pessoa.



Quando se atinge o limite, desiste-se, estarei eu a fazer bem?

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Quanto mais penso que preciso de alguém na minha vida, mais me apercebo que preciso de mim próprio.


No fundo é isso mesmo. Temo-nos a nós próprios e essa certeza deve ser bem consolidada na nossa vida. Afinal de contas, fazer de nós próprios prioridade não é assim tão errada, já que se tudo correr mal, é bom que nos tenhamos a nós próprios e que essa relação, de mim para mim, seja boa. A mente pode ser um canto escuro se não for educada e explorada e não devemos ignorá-la já que, nós só nos temos a nós próprios.


Elis Regina canta: “Eu preciso aprender a ser só. Poder dormir sem sentir seu calor”. Apesar de sermos mamíferos e sermos absolutamente dependentes uns dos outros, como sociedade. De vivermos num ambiente tão inteiramente dependente de uns dos outros, onde a componente social é uma fatia extremamente importante do nosso comportamento, devemos ainda assim estimar esta relação que existe com o nosso eu.


Nada é garantido nesta vida. Nada é certo e as certezas, essas, estão repletas de dúvidas e quanto mais vivo, mais sei que nada sei. Aquilo que temos, mesmo a própria vida, é temporário e portanto, mesmo a certeza de estarmos vivos pode apenas durar até ao próximo dia. O certo é que nós temos a nós próprios e mesmo que partilhemos as nossas vidas com quem quer que seja, a nossa individualidade, o nosso Eu, não pode ser esquecido.




Quanto mais penso que preciso de alguém na minha vida, mais me apercebo que preciso de mim próprio.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Both Sides Now"

Joni Mitchell canta, que agora, olha o amor de ambos os lados. Do dar e receber mas, no entanto, continua sem realmente conhecer o amor. De facto o que é que podemos dizer sobre o amor? Que certezas podemos ter sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa na vida? Quanto mais velho fico, menos certezas tenho; e não deveria ser ao contrário? Mais velho, mais conhecedor, mais sabedor, com mais certezas?

Num mundo onde reina a ilusão como podemos distinguir o que é real do que não é real? Já Fernando Pessoa dizia: “Não sei se é sonho, se realidade,”. Nem mesmo tudo aquilo que achamos ter garantidamente, fica connosco, garantidamente. Existe esta ilusão de uma perpetuidade que é só isso, uma ilusão. Uma mistura com uma pitada de sonho, uma chávena de esperança e uma colher de felicidade. Uma receita perfeita para manter os olhos fechados à realidade. Mas, será que o sonho passa a realidade, sem deixar de ser o Sonho? Haverá alguém com essa sorte? Ou será a vida uma realidade disfarçada a nós próprios, onde a receita da ilusão nos serve para esquecer a Verdade?

A música acaba com: “Eu realmente não conheço nada da vida”. E eu, de facto, não conheço nada da vida. Ainda ontem me lembro de dizer que tinha a certeza disto e aquilo. Hoje aceno a cabeça, encolho os ombros, levanto a sobrancelha e faço a cara de pouco entendedor aquando questionado com as problemáticas da vida. Há um ano que a duas palavras que mais digo são: “Não sei”. E realmente, não sei. Mas ainda tenho tempo para descobrir. Hoje tenho uma certeza, pelo menos. Cada vez mais olhos para tudo com dois olhos. Olho para o amor por um lado, pelo outro. Olho para a vida com um novo olhar, em nenhuma direcção específica, olhos apenas. Há de acontecer alguma coisa.




27.10.14