quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Desespero


Ao fim de dezoito anos de estudo, nunca me foi ensinado como lidar com o desespero, ou sequer como antevê-lo. A verdade é que todos nós somos assolados por ele na vida. Todos nós temos um medo aterrador de tudo, do início, da continuação, ou do fim. No entanto nunca nos ensinam a lidar com tudo isto. Ensinaram-nos matemática, ciências, as línguas, os poemas, os escritores, a história do nosso país, dos outros, da humanidade, dos impérios, do que já foi, do que é e do que virá a ser. Infinitos exemplos de infinitas repetições. Ensinaram-me a ler, a ver, a escrever, a falar, a ouvir, mas não a sentir.

Em todo este processo educacional extenso, como se negligenciou algo tão importante, tão único do nosso ser, que parece continuar a ser coberto por um véu preto intransponível? Vivemos de sentimentos, movemo-nos por sentimentos sem saber o que são, ou sequer ter a sua compreensão.
Depois de tanta repetição de nós mesmo, após anos de civilizações, de exemplos continuamos sem sequer nos percebermos a nós próprios e, pior ainda, sem sequer termos vontade de. A exploração do Eu e compreensão da nossa mente deveria ser a nossa prioridade.

O desespero, esse, vem daí mesmo. Desta falta de cultura do Eu, da falta de tentativa de compreensão. Aqueles que se tentam compreender, são vistos como estranhos. Aqueles lunáticos do mundo artístico que não sabem o que fazem cá. Mas alguém sabe? Alguém de facto sabe o que faz aqui, ali, acolá? Para onde vai amanhã, depois e depois?

Carregamos todos um desespero constante de tanta coisa. Apesar de ser carregado por nós todos os dias, raramente transparece aos outros o que efectivamente se passa dentro da alma. Envoltos em tantas camadas de máscaras e protecções, foi-nos instigado que mostrar desespero, mostrar fragilidade, é um sinal de fraqueza inadaptação social. Mas se o cérebro e o pensamento humano são as nossas maior virtudes e resultados de anos de evolução biológica, uma distinção única que nos manteve como os seres mais bem adaptados a esta Terra durante tantos anos, como o podemos esquecer tão facilmente, tanto as suas virtudes, como as suas necessidades e fraquezas?


Ignorar estas verdades, é ignorarmo-nos. Frequentemente jogamos às escondidinhas com a nossa mente. Há pensamentos tão obscuros que assolam o Ser Humano que são guardados no canto mais recôndito de nós mesmo, a salvo de nós mesmo. Tal e qual a nossa Caixa de Pandora, que quando aberta, solta todos os males do mundo. Alguns pensamentos são tão tenebrosos que nem ousamos tocar neles, pois quando o fazemos, soltamos todos os males que existem dentro de nós, todo nosso lado negro e os pensamentos que nos consomem por não ter solução, por se mostrarem terríveis verdades que a todo o custo tentamos fechar os olhos. Pensamentos que acordam memórias que há muito devia ter sido apagadas, mas que felizmente ou infelizmente, estão sempre armazenadas algures, prontas a disparar impulsos eléctricos de dor. O desespero é tudo isto, é uma espiral em queda, sem fim, sem ponta de começo, uma entrada num carrossel que não pára até voltarmos a fechar a nossa caixa, a nossa mente, porque não sabemos fazer nada mais, que isto mesmo. 

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